Those Pretty Wrongs começou como uma homenagem a Big Star
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Those Pretty Wrongs começou como uma homenagem a Big Star

Em entrevista ao ‘Estado’, Jody Stephens, ex-baterista da cultuada banda de Memphis, relembra histórias e diz como foi assumir os vocais em novo projeto

Alexandre Ferraz Bazzan

23 de fevereiro de 2016 | 16h49

“O Big Star era como uma carta enviada em 1971 que chegou em 1985. Alguma coisa deu errada no correio”

Robyn Hitchcock – vocalista e guitarrista do Soft Boys e fã de Big Star.

Com um grande revival, a banda se reuniu nos anos 1990 com dois integrantes do Posies. O reencontro gerou um novo disco, In Space, e várias apresentações ao vivo, mas o principal compositor, vocalista e guitarrista, Alex Chilton, morreu antes da hora no dia 17 de março de 2010, deixando o único remanescente original, Jody Stephens, sozinho. Uma banda de super estrelas foi montada para homenagear Chilton. Mike Mills do REM, Evan Dando, John Doe e muitos outros foram cantar e tocar no festival South by Southwest no que mais parecia um animado velório.

Na estreia do documentário Nothing Can Hurt Me, que conta a história da banda, Stephens foi novamente obrigado a lembrar os antigos companheiros, mas desta vez ele teria de cantar acompanhado apenas de Luther Russell, um desses criadores de baladas folk geniais e subestimadas. A transição do fundo, para a frente do palco foi tranquila, segundo Stephens. “Luther me encorajou e logo estávamos compondo músicas juntos”, diz ele.

Those Pretty Wrongs: Jody Stephens (e) e Luther Russell

Those Pretty Wrongs: Jody Stephens (e) e Luther Russell

O problema era que Luther morava em Los Angeles e Stephens em Memphis. “Eram ligações semanais nas segundas-feiras para compor músicas”, explica. Mesmo com um pequeno repertório em formação, os dois só se consideraram uma banda quando foram convidados pela Burger Records para tocar, coincidentemente, no South By Southwest em março de 2015. Eles passaram a se chamar Those Pretty Wrongs. O duo já lançou dois singles, Lucky Guy– uma balada que deve muito ao Big Star, a começar pelo violão de Chris Bell usado na gravação- e Fool of Myself, e tem um disco pronto que deve ser lançado até o fim de fevereiro.

Eles também têm uma turnê agendada para o mês que vem na Austrália, sendo que duas datas com o projeto que Jeff Tweedy, do Wilco, tem com seu filho. As chances de uma visita ao Brasil são sempre pequenas e Jody Stephens conta qual o principal entrave: “Nós adoraríamos tocar aí, mas nunca nos convidaram.”

Trilha sonora para os amantes. O Big Star é a banda para ouvir quando se está apaixonado (#1 Record e Radio City) ou ao fim de um romance (Third/Sister Lovers). As canções cobrem todos os sentimentos que um relacionamento amoroso pode despertar, e quando eles mesmos não foram capazes de colocar em letra e música a luxúria de convencer alguém de passar uma noitada em um quarto de motel, eles gravaram o cover de Loudon Wainwright III, Motel Blues. “Alex (Chilton) era um grande fã de Loudon, eu também acabei me tornando. Não tenho certeza se eles se encontraram alguma vez. Adoro o jeito como Alex canta, é como se a canção fosse dele”, diz o ex-baterista.

My Life Is Right fala de uma pessoa solitária que finalmente encontra a pessoa especial. I’m in Love With a Girl bem poderia ser sobre essa pessoa especial. September Gurls sobre o fim do amor (ao menos da parte dela) e Give me Another Chance sobre uma tentativa de reconciliação que não dá certo. Toda essa história culminaria no dilacerante terceiro disco lançado 5 anos depois de Radio City e quando a banda já nem existia mais.

“Eu acho que Third demorou um pouco para ser lançado porque ele pode ser um disco muito áspero e melancólico”, diz Stephens. Alex Chilton se separava da namorada Lesa Aldridge e toda a obra parece um desabafo para ela, mas também poderia ser o fim de qualquer relacionamento. “O álbum é uma reflexão brilhante sobre como ele (Chilton) se sentia na época e é por isso que as pessoas têm uma conexão tão forte até hoje”, explica.

As canções do Big Star têm esse poder absurdo de empatia. Qualquer um já passou pelo tipo de amor adolescente que impera em várias das músicas. É quase impensável não imaginar o que o casal de adolescentes conversava sobre Paint It Black ao ouvir Thirteen. A curiosidade é tanta que você acaba fazendo uma entrevista enorme pensando em fazer a pergunta:

Jody, em Thirteen, existe um verso que diz: “Fala para o seu pai sair do meu pé, diga a ele o que nós conversamos sobre Paint It Black“. Eu sempre sonhei em perguntar ao Alex o que esse casal conversou sobre a música dos Stones, mas nunca tive a chance. Ele tinha alguma observação especial sobre essa canção? Existia alguma piada interna sobre ela?

“Eu sempre recebi as músicas do jeito que elas vinham. Alex nunca me contou as histórias por trás de suas composições.”

Parece que nunca saberemos, mas apenas ouvir Thirteen já vale a pena.

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