Sou um perdedor
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Sou um perdedor

Um erro do Grammy para ajudar a música

Alexandre Ferraz Bazzan

09 de fevereiro de 2015 | 17h04

Foto: Kevork Djansezian/Getty Images/AFP - Nem o Beck acreditou que estava ganhando

Foto: Kevork Djansezian/Getty Images/AFP – Nem o Beck acreditou que estava ganhando

Já falamos sobre as derrapadas do Grammy aqui e aqui, mas parece que a premiação comete alguns deslizes propositalmente para o “bem da música”. O primeiro hit de Beck se chamava Loser e tudo estaria bem se ele perdesse mais uma, era até o esperado. Kanye West, esse ombudsman do mundo, chegou a subir ao palco para protestar, mas mudou de ideia.

Não é a primeira vez que o Grammy “dá uma dessas”, e pra mim no bom sentido. Em 2011, eles preteriram Eminem, Lady Gaga, Lady Antebellum e Lady Katy Perry para favorecer o rock independente do Arcade Fire. De lá para cá eles fizeram um disco pior que o vencedor daquele ano, The Suburbs, mas se tornaram uma banda maior do que eles jamais foram, mesmo com todo o hype em torno deles. Na época, até Kanye agradeceu a escolha.

Agora eles parecem querer dar força para os compositores autorais, o bom e velho singer/songwriter. Morning Phase foi com certeza um dos melhores discos de 2014, mas este não é o melhor trabalho do compositor, e talvez até os indicados mais pop tivessem mais direito na categoria Álbum do Ano. Na verdade, Beck não merecia levar nem a categoria de Melhor Álbum de Rock porque, convenhamos, não era bem um álbum de rock. Este é o tipo de reparação equivalente a dar um Oscar para o Scorsese por Os Infiltrados– um filme legal, mas nem de longe a melhor direção dele. É também a tentativa de oxigenar um estilo musical.

Assim como aconteceu com o Arcade Fire, não sabemos se o prêmio vai fazer bem à carreira de Beck ou ao estilo em que ele trabalha. Entretanto, nessas falhas, o Grammy mostra que música não é feita só de um talento técnico ou vocal estrondoso (Sam Smith foi comparado a Adele, o que eu acho um exagero), mas sim de originalidade, e não digo isso nem pelo acordo de Sam Smith com Tom Petty. Tudo começou com um revival interessante da talentosa Amy Winehouse, e se tornou uma invasão de clones que conseguem atingir todas as notas. Ao contrário do que o filme Whiplash passa, música não se trata somente de atingir todas as notas no tempo certo.

Colocando a casa abaixo. Em uma nota não relacionada, Bob Mould fez no último fim de semana uma apresentação no Late Show de David Letterman, que dará adeus à TV em breve, e fez poeira cair do teto do famoso auditório Ed Sullivan, onde uma banda de Liverpool tocou para mudar a história da música e influenciar gerações. Pessoas da plateia confirmaram o abalo na estrutura do teatro que depois, coincidência ou não, ficou interditado por um tempinho.

Mould sim pode ser considerado um “perdedor”, ou ao menos um “outsider”. Vocalista do Husker Dü e do Sugar, bandas que ajudaram a pavimentar o caminho de glória do Nirvana sem poder surfar no sucesso de seus sucessores, ele ainda teve a coragem de se assumir gay no começo dos anos 90, quando o assunto ainda era mais tabu que nos dias de hoje. Seu mais novo disco se chama Beauty & Ruin. Veja abaixo ele tocando no Late Show:

Que a tentativa do Grammy de oxigenar a música dê certo e novos perdedores como Beck e Mould continuem aparecendo. Em todo caso, somente a cara de frustração de Sam Smith já vale a pena. Essa molecada precisa aprender que não dá para ganhar todas.

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