São Paulo, senta aqui, a gente precisa conversar
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São Paulo, senta aqui, a gente precisa conversar

Minha tentativa idiota de ter uma DR com a cidade

Alexandre Ferraz Bazzan

25 Janeiro 2015 | 17h10

Sábado à noite e assisto um filme ruim em minha caixa de sapato. Os personagens reclamam da vida, do emprego, das relações amorosas e afetivas. Eu poderia ver a filmografia do Hitchcock, do Fellini ou do Truffaut. Não, aqui estou eu tentando arranjar filmes bons de diretores e atores que eu nunca ouvi falar na vida. Uma imbecilidade minha criada depois do Netflix.

Os resmungos fictícios poderiam muito bem ser reais. Parece que hoje em dia ninguém está satisfeito com o que tem. É que as crianças são preparadas de forma equivocada para o mundo. Lembro de três coisas que sofri muita pressão para aprender, cheguei a perder sono por causa disso:

– Aprender a ver horas no relógio de ponteiro

– Aprender a amarrar os sapatos

– Bhaskara

Não preciso dizer que nunca usei a fórmula de Bhaskara fora da sétima série. Com a chegada dos celulares, eu nem relógio uso mais. Por fim, a última vez que dei nó nos cadarços foi há dois anos quando comprei meu último par de tênis. Talvez eu esteja precisando de um novo.

Mas o que isso tem a ver com São Paulo?  Nada. Tirando que, se o aluguel não fosse tão caro, talvez eu não precisasse viver em uma caixa de sapatos.

Foto: Wilton Júnior/Estadão

Foto: Wilton Júnior/Estadão – “Aqui de boa procurando uma situação cotidiana para usar Bhaskara.”

Me lembro o exato dia em que me apaixonei por esta cidade: 3 de dezembro de 2005. Acordei em um quarto de hotel depois do famoso e irresistível sexo de reconciliação com uma ex-namorada. Fomos a um almoço comemorar o aniversário de um amigo e de lá rumamos para o Pacaembu. Uma engenharia inacreditável fez com que os moradores do charmoso bairro permitissem que o Pearl Jam tocasse no estádio municipal.

Depois de I Believe in Miracles, dos Ramones, eu temia pelo pior. Todos torcendo para que eles mandassem uma balada para acalmar os ânimos e o que vem em seguida foi o grito gutural de Do the evolution. Todos sobreviveram.

A animação era tanta depois do show, que decidimos ir para a Funhouse. Uma fila enorme e um cara deitado na porta tentando vomitar nos desanimou. Caminhamos até o Sarajevo e passamos duas vezes pela pontinha antes de entrar em seu buraco de coelho que levava para um lugar com cinco ambientes: bar, dj de rock, dj de eletrônica, um lugar com poltronas e livros e uma banda de reggae botando para quebrar em um palquinho minúsculo.

Todos já estavam cansados quando um amigo lembrou. “Peraí, tem o Milo Garage“. E lá fomos nós. Um lugar de teto baixo no Higienópolis com o melhor dj que eu já vi na vida (ao lado do Z-Trip), o Guab. Esse cara conseguia mixar Vai Passar do Chico Buarque com In Bloom do Nirvana sem que você percebesse o fim de uma música e o começo da outra. Sem contar o repertório, que ia de Pixies a Velvet Underground, passando por Strokes, Interpol, Chico Buarque, Tim Maia e por aí vai. O Milo virou ponto obrigatório e eu estava lá no último dia da casa. Um clima de tristeza e celebração.

Mudei para São Paulo em fevereiro de 2010 e dividi apartamento com um amigo no Itaim Bibi. O trânsito era incontornável, mas pelo menos eu poderia ir caminhando para a Via Funchal e assistir alguns dos concertos mais legais do mundo. Lá eu vi R.E.M., Bob Dylan, New Order, Franz Ferdinand, Hives, e tantos outros. Em algumas semanas, São Paulo tinha programação de rock mais movimentada que Nova York e Londres.

São Paulo, eu te amo, mas você tá me botando pra baixo

Outros três lugares que marcaram foram Vegas, Teta e Audio Delicatessen. O primeiro simplesmente por ser super diferente, acho que é uma das casas mais legais que eu já fui. O Audio foi palco de festas com amigos nas quais nós discotecávamos indie rock e outras farofadas. Lá chegamos a tocar com casa cheia e para seis pessoas. A diversão era a mesma. O Teta era um barzinho delicioso de jazz que você podia ir, ouvir boa música sem compromisso e sem gastar muito.

O que esses lugares têm em comum tirando que eles me fizeram gostar desse caos chamado São Paulo? Todos fecharam. O Milo conseguiu reabrir na avenida Pompeia, Sarajevo e Funhouse reabriram no mesmo lugar, mas reformulados. Antes você conseguia entrar em qualquer inferninho da Augusta por 5 ou 10 reais. Agora, se dê por satisfeito se achar um lugar que cobre menos de 30 reais.

Os imóveis estão mais caros, os aluguéis estão mais caros, e com eles todo o resto fica mais caro. Fica quase inviável manter um negócio pequeno e independente. O underground paulistano está sufocado.

Com esse negócio de apagão e a perspectiva de ter que viver sem água, todos já começam a desenhar como seria se o pior vier a acontecer. Estamos cada dia mais apocalípticos.

Estou procurando amigos para o fim do mundo, ou da água.

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