Quem conhece a própria história?
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Quem conhece a própria história?

Todas as sementes ruins floresceram

Alexandre Ferraz Bazzan

13 de fevereiro de 2015 | 22h37

Um cara que é uma mistura de Elvis Presley e Iggy Pop sobe ao palco do Pyramid Stage. A banda também tinha um tecladista que tocava guitarra violino e o terror, um cara que tinha o carisma que podia ser medido pelo tamanho da barba. Esse crooner esquisitão com voz cavernosa por acaso tem o sobrenome Cave e sua banda, que inclui o barbudo Warren Ellis, é o Bad Seeds.

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Analisando seus 20.000 dias neste planeta, Nick Cave diz que tem dificuldade de se comunicar com as multidões. A conexão que ele faz em um show é com as pessoas coladas na grade, mas essa é uma conexão profunda. Depois que eles tocaram a última música, um profeta saiu gritando na plateia: “o festival já acabou, podem ir embora.” O Blur ainda encerraria a noite, mas nada ultrapassaria aquela experiência.

Eu e um amigo voltamos para Londres e alugamos um carro. Como a direção e as ruas estavam todos invertidos, eu consegui andar um quarteirão e meio antes de bater em uma sarjeta e estourar dois pneus. “Estraguei a viagem”, eu disse. “Cara, só erra o pênalti quem bate”, essa era a maneira de meu amigo dizer que tudo estava bem.

O carro foi guinchado para um mecânico, trocamos os pneus e conseguimos chegar até Liverpool. Acabamos com todas as libras que tínhamos e perdemos o voo para Dublin. Durante esse mochilão pela Europa ainda perderíamos outro voo e teríamos outros contratempos que me fariam perceber que por mais que as coisas dessem errado, eu não poderia continuar fazendo o que eu fazia. Prestei vestibular aos 30 anos, 13 depois de ter saído do colegial. Não sei como, mas passei, e quatro anos depois estou aqui escrevendo este texto.

Assistimos todos os dias histórias de pessoas que deixaram tudo para fazer o que gostam. Achamos isso inspirador, mas não se enganem com a máxima de que sonhos acontecem, e não esperem que portas se abram pelo simples fato de você ter feito algo corajoso. Quando mudei para São Paulo, esse mesmo amigo me apresentou duas jornalistas. A primeira estava deixando a profissão desiludida. Ela iria viajar e ver o que rolava. A segunda me disse que eu deveria procurar um terapeuta. Ao invés disso, procurei um emprego e acho que deu mais certo.

Ainda no “documentário” de seus 20.000 dias na Terra, Nick Cave diz que não existe espaço para sermos preguiçosos, o tempo está passando a todo momento. Para ele, é preciso que sigamos com alguma ideia, mesmo que ela seja ruim. É uma ilusão acharmos que temos controle sobre algo, mas é preciso tentar. Pelos menos é isso que o Nick Cave disse.

Um bom carnaval a todos.

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