Por que os ingressos dos shows são tão caros?
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Por que os ingressos dos shows são tão caros?

Do ponto de vista monetário não há argumentos que justifiquem a galopada de preços

Alexandre Ferraz Bazzan

22 de março de 2019 | 23h27

Paul McCartney vai fazer dois shows em São Paulo na próxima semana em sua 10ª passagem pelo Brasil. Os ingressos, ainda disponíveis para a data extra criada depois que o primeiro dia esgotou, variam entre R$ 200 (no setor mais barato pagando meia) e R$ 890 (na pista vip inteiro). O valor do salário mínimo é R$ 998.

Em 1990, o ex-Beatle veio ao País pela primeira vez para tocar no Maracanã e as entradas custavam entre 500 e 700 cruzados. O Acervo Estadão criou um sistema de atualização de preços baseado na quantidade de jornais que equivaliam a um produto em determinada época e quanto isso daria traduzido para a economia atual.

Usando o conversor do Acervo chegamos aos seguintes valores:

1990

Ingresso mais barato: Cr$ 500 – 16 jornais – R$ 83,33

Ingresso mais caro: Cr$ 700 – 23 jornais – R$ 116,17

2019

Ingresso mais barato: R$ 200 – 40 jornais

Ingresso mais caro: R$ 890 – 178 jornais

Levando em conta o “número de jornais necessários para comprar” as entradas mais caras, podemos afirmar que os preços tiveram uma escalada de 773%. Em abril de 1990, o salário mínimo era Cr$ 3.674,06, ou seja, um ingresso tomava uma porcentagem muito menor do salário do brasileiro do que agora. Outra coisa para levarmos em consideração é a diferença exorbitante entre os diferentes setores. Em 1990, uma pessoa que tinha poder aquisitivo para ir ao show poderia escolher qualquer setor por conveniência(se queria assistir sentada ou em pé mais próxima ao palco). Hoje, um estudante que paga R$ 200 no ingresso mais barato provavelmente não tem a menor condição de ir na área vip. Mas, afinal, por que os ingressos estão tão caros?

Paul acena da sacada do hotel ao lado da mulher, Linda. Foto de arquivo – 1990: Antonio Batalha/Estadão

Do ponto de vista monetário não há argumentos que justifiquem a galopada de preços. Entretanto, desde 1998, com a criação do Napster e a popularização da troca de arquivos online, as vendas de discos começaram a cair e o que era o principal ganha pão dos artistas do mainstream passou a ser secundário. Sem faturar com milhões de álbuns, os músicos foram obrigados a voltar a atenção para os shows. Os ingressos ficaram mais caros e a indústria se profissionalizou. Novos setores também foram criados e os valores ficaram menos uniformes. Um dos exemplos mais peculiares foi a criação de áreas vip.

As especificidades brasileiras

Os bilhetes para shows ficaram mais caros no mundo inteiro, mas os preços parecem ter aumentado mais intensamente aqui no Brasil. A diferença cambial e a precariedade de infraestrutura explica isso em parte, mas alguns profissionais da área apontam a meia entrada como fator determinante. O País também tem uma série de taxas e algumas empresas chegam a cobrar para o cliente imprimir o ingresso em casa.

Recentemente, o STJ proibiu a taxa de conveniência, mas as tiqueteiras já dizem que a taxa pode ser embutida no preço do ingresso sem discriminar a diferença entre o valor de face desejado pelas produtoras dos eventos e os custos da responsável pela comercialização dos bilhetes.

A taxa de conveniência, explicam as empresas, serve para custear a tecnologia necessária que inclui site, sistema anti-fraude, terceirização de telemarketing, criação de pontos de venda, impressão de entradas e entrega ao consumidor final. Alguns especialistas, porém, acham a cobrança abusiva. Entre eles, obviamente, a Justiça.

A verdade é que, em uma economia de mercado, enquanto o público continuar a fazer fila e esgotar ingressos em poucas horas, as empresas vão continuar subindo o preço para testar até qual valor o cliente está disposto a pagar.