Por onde andaria Rob de Alta Fidelidade?
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Por onde andaria Rob de Alta Fidelidade?

Nick Hornby escreveu artigo em que dá pistas de como estaria a vida do personagem e por que ele nunca escreveu uma sequência de seu maior sucesso

Alexandre Ferraz Bazzan

10 Março 2015 | 15h54

O segundo livro de Nick Hornby é ainda hoje seu maior sucesso, e um de seus trabalhos mais legais, mas o autor sente que falar sobre discos de vinil hoje em dia é como falar sobre um ferreiro. Jovens, usem o Google para caso não conheçam essas duas tecnologias. O autor diz que pergunta para amigos o que foi feito dos donos de lojas de discos independentes e os paradeiros são os mais diversos: de carteiro e garçom a escritor de literatura pornô e, pasmem, ainda donos de lojas de discos.

Sabemos por fato que Laura recusou um pedido de casamento sem vergonha de Rob, mas eles terminam juntos no livro e no filme. Hornby comenta em seu artigo que sempre, quando considera escrever uma continuação para sua obra prima, se faz três perguntas: Rob e Laura continuam juntos? Eles têm filhos? O que Rob está fazendo agora?

Ele responde às duas primeiras: não e sim. A terceira questão permanece nebulosa como o mercado de música. O escritor compara as dificuldades de se ter uma coleção de discos até os anos 90, no começo do século e hoje em dia. Primeiro você tinha que comprar os bolachões (bolachão é um disco de vinil,  não uma bolacha muito grande(agora me pergunto se os cariocas chamavam o vinil de biscoitão)) e, como faltava dinheiro, você acabava ouvindo cada uma das músicas dos seus 12 álbuns umas mil vezes. No começo do século você pedia que alguém enchesse o seu mp3 player e hoje em dia todas as músicas já feitas estão disponíveis em algum tipo de serviço de streaming.

Foto: Reprodução - John Cusack no papel de Rob Gorden, o nome do personagem foi americanizado, no livro ele chama Rob Fleming

Foto: Reprodução – John Cusack no papel de Rob Gordon. O nome do personagem foi americanizado, no livro ele chama Rob Fleming

Quem pode ouvir tudo, acaba não ouvindo nada. Hornby ainda diz que por mais dolorosa que pudesse ser a esnobada de atendentes de uma loja de vinil, esse diálogo era fundamental para o crescimento cultural. Segundo ele, não dá para aprender ficando trancado no quarto com uma conexão de internet. É preciso ir a lojas, shows e cinemas para conseguir evoluir.

Quanto vale o show? 

Sempre que posso vou visitar meus avós e no último fim de semana eu conversava com eles sobre a compra de músicas no Itunes. O gasto com um arquivo não palpável era algo incompreensível para o meu avô, e levou um tempo para que ele pudesse entender que a música tocava no computador. A música, como um livro, filme ou obra de arte, é a execução de uma ideia, a coisa mais maleável do mundo.

Quando todos estavam acostumados a gastar uma grana para ouvir essas ideias, um moleque criou uma forma de compartilhar de forma não física. Ainda hoje estamos lutando para saber o valor das coisas, desde o valor monetário que precisa, de alguma forma, sustentar o artista no atual sistema produtivo que vivemos, mas também os valores simbólicos.

Eu, por exemplo, tenho dificuldade em categorizar algumas coisas. Não entendo como Sex Pistols possa ser uma banda “respeitada”, enquanto o Green Day é visto como algo menor, mesmo não gostando do Green Day. Por esse motivo, sempre uso pessoas para categorizar qualidade e notoriedade. Quando minha mãe gosta de alguma coisa, eu presumo que esse artista está mega-ultra-famoso, e ela não costuma gostar de coisas ruins também. Foi assim com a Amy Winehouse. Aí você tem amigos que gostam de modismos, outros mais nostálgicos, e tem também o seu próprio gosto.

Mas parece que sempre é preciso algum carimbo. Ano passado a cantora Erykah Badu ficou parada em um dos pontos mais movimentados de Nova York, a Times Square, improvisando sem acompanhamento canções que pediam para quem passava contribuir com algum dinheiro. Você imaginaria que uma das maiores vozes do soul atual criaria um pequeno tumulto, pessoas fariam fila para tirar uma foto e formariam uma roda para ouvi-la. Nada disso. Ela ficou um bom tempo cantando e o máximo que conseguiu foi 3,60 dólares. Ninguém sequer pediu um autógrafo.

Para se ter ideia, quando a cantora passou por São Paulo, em 2010, os preços dos ingressos para seu show variavam entre 100 e 400 reais, mas quando colocada de frente ao público sem aviso prévio, poucos, ou ninguém, reconheceram o talento.

We jam econo – Quando o artista é tão quebrado quanto o fã

Hoje em dia discos e shows viraram quase um artigo de luxo. Os vinis novos chegam a custar mais de 100 reais e os usados também não são muito baratos. Nos anos 1980 artistas e fãs criavam uma estrutura  para viabilizar uma cena alternativa que sempre andou abaixo do radar das grandes gravadoras.

O Minutemen tornou isso filosofia de vida. D. Boon e Mike Watt fizeram uma das parcerias mais legais do punk, mesmo eles não sendo muito punk na música e no visual. A banda lançava discos pela gravadora independente SST de Greg Ginn que dividia seu papel como “empresário” com o trabalho de guitarrista e compositor do Black Flag, e viajava em uma van velha economizando o máximo que podiam não só nos shows, mas no orçamento diário.

Os amigos provavelmente estariam juntos até hoje não fosse um terrível acidente automobilístico que matou D. Boon. Mike Watt terminou a banda porque achou que não existia clima para continuar, mas toca seu baixo até hoje no estilo econômico de notas e dinheiro. A história deles é contada no magnífico documentário We Jam Econo, e vocês podem assistir ele na íntegra aqui embaixo. Bom divertimento 🙂

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