Os melhores discos de 2010-2019
As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Os melhores discos de 2010-2019

Kanye West, Beyoncé, Arcade Fire e Elza Soares estão na lista

Alexandre Ferraz Bazzan

06 de dezembro de 2019 | 17h17

Tem momentos em que eu gostaria que alguém, nem que fosse um robô, tomasse conta da minha vida como os serviços de streaming dão sequência àquelas playlists inacabadas. Nos últimos 10 anos nosso jeito de ouvir música mudou completamente. Mesmo com todo o rescaldo nostálgico dos vinis, o streaming se consolidou e hoje ninguém sequer se dá ao trabalho de baixar um disco(seja comprando ou pirateando), muito menos enfrentar a poeira dos sebos atrás de bolachões que estão cada vez mais caros. As playlists ganharam força, mas nós ainda teimamos em ouvir os álbuns inteiros. Essa também foi a década em que o hip-hop passou o rock nos números de músicas tocadas.

Eu separei os discos em 5 categorias que não têm nenhum tipo de aglutinação estética, mas que fazem sentido na minha cabeça. Os incontestáveis são aqueles que você vai encontrar em vários sites; Perto demais da morte reúne trabalhos de artistas que estavam morrendo ou queriam morrer quando gravaram, ou que perderam pessoas importantes para eles; Segurando o cajado do rock e Brasileiros têm critérios bem óbvios e por último Talvez você só veja por aqui reúne os discos que eu ouvi muito e por isso ganharam um espaço significativo no meu coração, mas sei que colocar eles junto com todos os outros é uma decisão controversa.

Veja a lista abaixo e, se gostar, escute a playlist com as melhores músicas de cada álbum:

Os incontestáveis

Kanye West – My Beautiful Dark Twisted Fantasy (2010)

Ele é o artista mais importante da década. Com o passar dos anos as polêmicas, o apoio a Trump, os recordes de streamings e a conversão religiosa acabaram entrando na frente das músicas, mas elas estão gravadas para quem quiser ouvir.

Solange – A seat at the table (2016)

Solange Knowles não tem o mesmo volume de produção da irmã, fama e quantidade de Grammys. A conta bancária também é muito mais modesta, mas A Seat At the Table é melhor do que a maioria dos discos de Beyoncé.

Arcade Fire – The Suburbs (2010)

A Arcade Fire já era queridinha indie, mas The Suburbs rendeu um Grammy de disco de ano, trouxe alguns “hits” e ampliou o espectro artístico para os shows de arena. Daqui a 50 anos pode ser que apenas Funeral(o disco de estreia deles) seja lembrado, mas The Suburbs é um álbum mais legal de sentar e ouvir.

D’Angelo – Back Messiah (2014)

A única crítica possível ao D’Angelo é a de que ele não lança músicas suficientes. Já são 5 anos desde o delicioso Black Messiah e antes disso foram 14 anos de hiato para o Voodoo que catapultou o cantor e compositor para a fama mundial.

LCD Soundsystem – This Is Happening (2017)

This is happening foi o disco de despedida do LCD Soundsystem. A turnê que acompanhou o lançamento teve um clima de festa triste, como aquelas que a gente dá para um amigo que vai embora(para algum lugar, não um enterro). Pouco mais de 5 anos depois eles voltaram, com direito a novo álbum, e fizeram todo mundo de trouxa.

Courtney Barnett – Sometimes I Sit And Think, And Sometimes I Just Sit (2015)

Courtney Barnett é a artista mais interessante do rock na atualidade. Mesmo com apenas dois discos, para mim é incompreensível que ela ainda não lote grandes estádios. Sometimes I Sit And Think, And Sometimes I Just Sit é um marco dessa década que passou.

The National – High Violet (2010)

O ponto forte do The National é a constância. Eles surgiram na mesma época dos Strokes e eram os menos badalados de todos os grupos que apareceram em Nova York no começo do século. Nunca tiveram um grande hit, mas a cada 2 ou 3 anos lá estão eles lançando um bom disco, excursionando com o vocalista Matt Berninger se esgoelando e andando no meio da galera. Hoje já não é exagero dizer que eles têm a carreira mais respeitável entre os seus contemporâneos. High Violet é um degrau importante nessa escalada.

Alabama Shakes – Boys and Girls (2012)

O Alabama Shakes tem boas músicas, mas é bem provável que as pessoas comprassem discos apenas para ouvir a voz de Brittany Howard mesmo sem instrumentos. A cantora é uma força da natureza e inclusive lançou um bom disco solo este ano.

Beyoncé – Lemonade (2016)

Lemonade é um clássico que influenciou até o Jay-Z. Tudo ao redor dele brilha – a série de vídeos que acompanhou TODAS AS MÚSICAS, a arrebatadora performance no Superbowl, os shows lotados… O disco foi lançado apenas no Tidal, serviço de streaming do Jay-Z, para potencializar o número de assinantes e mesmo assim chegou ao número 1 da Billboard.

Kendrick Lamar – To Pimp a Butterfly (2015)

Um disco que influenciou David Bowie e seu Blackstar e gerou o hino do movimento Black Lives Matter nos EUA(Alright). To Pimp a Butterfly é um divisor de águas na carreira de Krendick Lamar e um marco da música.

Charles Bradley – Victim of Love (2013)

A história de Charles Bradley é tão bonita quanto trágica. Ele viveu até os 62 anos na pobreza se virando como cozinheiro, fazendo pequenos bicos e eventualmente imitando James Brown. Ele foi descoberto pela gravadora Daptone, mas se foi cedo demais, em 2017, com um câncer no estômago. Bradley só conseguiu lançar 3 discos autorais em vida. Victim of Love é o momento em que ele se afasta de James Brown e expande o seu som.

Elza Soares – A mulher do fim do mundo (2015)

A Elza provou que eu estava parcialmente certo quando fiz listas de melhores do ano misturando artistas brasileiros e estrangeiros. A Mulher do Fim do Mundo repercutiu em sites e jornais do mundo inteiro. Tudo isso cantando em português.

Perto demais da morte

Purple Mountains – Purple Mountains (2019)

Essa é a carta suicida mais bem humorada que já foi feita. Todos ficaram contentes com o novo projeto de David Berman e, como ele se comprometeu a fazer uma pequena turnê, ninguém percebeu que as letras tristes e auto-depreciativas não faziam parte da ironia fina do compositor. Ele tirou a própria vida pouco tempo depois.

Leonard Cohen – You Want It Darker (2016)

Nós pensávamos que You Want It Darker fosse o disco de despedida de Leonard Cohen(o trabalho foi lançado 19 dias antes de sua morte), mas com o álbum póstumo Thanks for the Dance descobrimos que o cantor fez questão de gravar vocais para o futuro. O filho do homem, Adam Cohen, reuniu uma grande equipe de artistas para musicar, mas o resultado, apesar de bonito, fica abaixo do último registro com o pai ainda vivo.

Mount Eerie – A Crow Looked at Me (2017)

O compositor Phil Elverum fez um álbum inteiro falando sobre a morte da sua mulher e o resultado é devastador, mas muito bonito ao mesmo tempo. Tente não chorar.

David Bowie – Blackstar (2016)

O disco de despedida de David Bowie foi lançado oficialmente no dia de sua morte. Até os seus últimos dias viraram uma obra de arte e o videoclipe de Lazarus é tão bonito quanto perturbador.

Nick Cave and the Bad Seeds – Skeleton Tree (2016)

Esse é o primeiro disco de Nick Cave depois da morte de um de seus filhos, Arthur. Cave e o parceiro Warren Ellis têm feito algumas trilhas sonoras e parece que o clima cinematográfico influenciou o trabalho da Bad Seeds desde Push the Sky Away, que também poderia estar nesta lista.

Segurando o cajado do rock

Car Seat Headrest – Teens of Denial (2016)

O Car Seat Headrest era apenas o Will Toledo gravando dentro do carro e usando o encosto do banco para segurar o microfone. O improviso gerou muitas músicas boas e virou uma banda de verdade. Teens of Denial tem tudo que o rock deveria ter: juventude, psicotrópicos, questões existenciais e boas guitarras.

Foo Fighters – Wasting Light (2011)

Dave Grohl se tornou a Ivete Sangalo do rock mundial e isso é tanto um elogio quanto uma crítica. Assim como a Ivete, dificilmente você sairá de um show do Foo Fighters decepcionado. São artistas consagrados que seguem uma fórmula que não falha, mas dificilmente vão mudar o panorama da música atual ou a vida de alguém. Wasting Light é o melhor que o Foo Fighters pode fazer dentro dessa fórmula e isso é bom o suficiente.

Reigning Sound – Shattered (2014)

Meu sonho é entrar no carro e dirigir até chegar em um lugar sem desigualdade e polarização. A trilha sonora desse caminho é esse disco do Reigning Sound.

Against Me! – Shape Shift With Me (2016)

O disco talvez seja um dos mais pops da Against Me!, mas tem hinos tão legais quanto de álbuns anteriores, quando Laura Jane Grace se afastou do punk folk do começo de carreira(e alienou alguns fãs mais chatos). Junto com o livro de memórias Tranny, lançado mais ou menos na mesma época, também é um olhar para o passado.

Japandroids – Celebration Rock (2012)

Uma guitarra e uma bateria não faziam tanto barulho desde que o Jack White decidiu acabar com o White Stripes(o Black Keys tentou, mas, sejamos honestos, não conseguiu). E não é só barulho. O baterista David Prowse faz bonitas harmonias vocais com o vocalista e guitarrista Brian King.

Sharon Van Etten – Remind me tomorrow (2019)

Com cinco discos em pouco mais de 10 anos, Sharon Van Etten já pode ser considerada uma artista veterana. Are we there é tão bonito quanto Remind me tomorrow, mas o segundo é mais urgente e tem ao menos dois hinos que seriam hits em uma época mais roqueira. Se ainda existissem pistas de dança que tocam o gênero, Seventeen seria cantado até acabar a voz e com um punho socando o ar.

Arctic Monkeys – AM (2013)

AM talvez seja o último grande disco de rock feito. Não na qualidade, mas na importância. O penúltimo trabalho dos Arctic Monkeys tocou no rádio, nas pistas de dança e rendeu uma turnê em grandes arenas. Depois deles, apenas artistas do pop e hip-hop repetiram essa tríade.

Jack White – Blunderbuss (2012)

Sem novidades aqui. Jack White teve mais uma vez uma década movimentada e lançou discos com três projetos diferentes, além do trabalho à frente de sua gravadora, Third Man Records. Esse é um dos vários bom discos que ele lançou – o melhor deles.

Brasileiros

Criolo – Nó na orelha (2011)

De tempos em tempos alguém escreve sobre São Paulo. É a musa mais feia que a música poderia desejar, mas mesmo assim rende boas obras de arte. Não existe amor em SP está fadada a ser atual por muito tempo ainda(carinha triste).

Rincon Sapiência – Galanga Livre (2017)

O Rincon é um dos artistas mais talentosos dessa nova safra brasileira e fez um disco bem perto da perfeição. Galanga Livre fala de problemas sociais, da desigualdade e dos perrengues da cidade usando temas cotidianos e referências populares.

BaianaSystem – Duas Cidades (2016)

Lançado no mesmo ano de Aquarius, de Kleber Mendonça Filho, Duas Cidades poderia ser a trilha sonora do filme e Lucro a canção original. Mereceria Oscar.

Boogarins – As Plantas que Curam (2013)

Boogarins surgiu de uma cena efervescente em Goiânia, mas talvez eles fiquem mais a vontade perto do Tame Impala. O som psicodélico deles fez sucesso aqui no Brasil(ao menos na bolha roqueirinha) e rendeu turnês no exterior.

Baco Exu do Blues – Bluesman (2018)

“Tudo que quando era preto era do demônio. E depois virou branco e foi aceito, eu vou chamar de blues” – É assim que o “Kanye West da Bahia” começa um dos melhores discos dos últimos 10 anos. Baco faz parte de uma nova onda de grandes artistas baianos.

O Terno – O Terno (2014)

O Terno representa o rock brasileiro do século 21 – sem preconceitos e sem medo de abraçar outros estilos. O Cinza é uma música tão bonita sobre SP que virou um clipe da TV Estadão quando entrevistamos Tim Bernardes antes da participação deles no Lollapalooza de 2015.

Caetano Veloso – Abraçaço (2012)

A capa icônica virou meme talvez antes de o meme decolar como instituição nacional. Era normal na época as pessoas compartilharem fotos recebendo um abraçaço de vários amigos. Estou Triste é uma das músicas mais bonitas da década.

Talvez você só veja por aqui

John Prine – The tree of forgiveness (2018)

Esse é um disco em que Prine olha para trás na vida. As duas cirurgias que ele fez na garganta mudaram a voz dele e não para pior. Em uma entrevista para a NPR, ele diz que com a voz mais baixa, ela ficou mais “amigável”.

Father John Misty – God’s Favorite Customer (2018)

Josh Tillman deve aparecer em todas as listas da década com I Love You Honeybear, mas God’s Favorite Customer é o meu preferido. Ele e a mulher brigaram e ele foi para Nova York viver um tempo hospedado no Bowery Hotel. Father John Misty descreve uma rotina de festas e drogas em Mr. Tillman e deixa claro que não está gostando disso. Salvas todas as devidas proporções, esse é o Blood On The Tracks do barbudo.

Radiohead – A Moon Shaped Pool (2016)

Se olharmos para trás, veremos que essa definitivamente não é a década do Radiohead. Acontece que A Moon Shaped Pool é um disco bonito independente dos modismos. Algumas das músicas foram compostas há anos e isso mostra o cuidado com os registros. Eles tocam True Love Waits, por exemplo, desde o final dos anos 1990 nos shows, mas só agora “acharam” uma versão em que eles ficassem satisfeitos. Eu poderia citar vários outros indícios pequenos aqui desse preciosismo, mas nada grita tão alto quanto as 18 horas de gravações que eles engavetaram e só liberaram recentemente após uma suposta chantagem de um hacker(não o do Moro).

Joyce Manor – Never Hungover Again (2014)

O Joyce Manor consegue aliar em Never Hungover Again uma combinação de veia pop com gritaria. Christmas Card está com certeza entre as músicas mais legais da década.

Earl Sweatshirt – I don’t like shit, I don’t go outside (2015)

Earl Sweatshirt tem boas rimas e letras espertas, mas, para mim, o seu ponto forte é praticamente ter criado uma nova vertente do hip-hop que é o rap triste. Eu fiquei em dúvida entre I don’t like shit, I don’t go outside e Doris, que tem a minha música preferida dele, Burgundy(que tem as linhas geniais: “Por que você está sempre depressivo e triste? Qual o problema, cara? As pessoas querem ouvir você cantar rap, ninguém se importa em como você se sente”), mas I don’t like shit representa melhor esse sentimento como disco.

Beach Slang – The Things We Do To Find People Who Feel Like Us (2015)

“Nós somos o Beach Slang e estamos aqui para socá-lo bem no coração”. É desse jeito que o vocalista da banda começa os shows. O Beach Slang transformou suas letras em uma sessão de terapia para roqueiros incompreendidos e isso acabou virando uma fórmula que deu certo esteticamente. Eles vão lançar um novo disco em 2020 e os primeiros singles mostram que essa fórmula está perto de se desgastar, mas o trabalho deles até agora é de revigorar a alma.

Nada Surf – You Know Who You Are (2016)

Um disco cheio de melancolia, mas otimista ao mesmo tempo. É como um amigo que te diz “você não tem que correr pelo parque…mas seria legal sair e ver outras pessoas”. É impossível não esboçar um sorriso depois de ouvir a música Out of the Dark – Escrevi isso em 2016 e continua sendo verdade.

LEIA MAIS

+ Os 10 melhores shows internacionais da década

+ Os 20 melhores documentários de música da década

Tendências: