Os incompreendidos
As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Os incompreendidos

Alexandre Ferraz Bazzan

11 de março de 2016 | 03h25

Há 41 anos, dois desconhecidos dividiram um quarto de hotel. Como ainda não existiam smartphones, eles foram obrigados a conversar e descobriram que tinham muito em comum. Não dormiram. Eles conversaram sobre buracos negros. Provavelmente o nome de Einstein surgiu em algum momento e pelo resto da vida eles tentaram comprovar uma das teorias do físico alemão: “Ondas Gravitacionais”. Passaram por bobos, gastaram tempo e dinheiro e, por vezes, devem ter desanimado, mas fizeram disso sua principal missão.

Os escritores David Foster Wallace e Jonathan Franzen fizeram algo semelhante. Sentaram juntos para colocar em papel algo que definisse o sentido da literatura de ficção. Chegaram à conclusão de que era combater a solidão. Logo eles que passaram sozinhos boa parte de suas existências (Franzen ainda vive, mas segue o ato solitário de encarar o papel em branco) construindo obras monumentais.

Ímpeto parecido, tinham François Truffaut e Jean-Luc Godard. Eles logo arrumaram um lugar para escoar as ideias sobre cinema, a revista de Andre Bazin, Cahiers Du Cinéma. Quando escrever sobre filmes não foi suficiente, eles decidiram criar suas produções e com isso mudaram a sétima arte para sempre. Truffaut inventou uma vida para si fazendo o garoto Antoine Doinel crescer e amadurecer nas telas.

Todos estes gênios têm algo em comum: a persistência, a vontade de realizar algo e a necessidade de dar algum sentido à vida.

James Alex, da banda Beach Slang, tem gana parecida, apesar de estar longe de ser gênio. O vocalista e guitarrista tocou seu instrumento por um longo período até ter que ser pai de família, ter que arrumar um emprego estável. Ele virou designer, mas não parou de compor e um dia essas composições se tornaram um novo projeto. James alertou a gravadora para que não investisse muito naquilo que ele acreditava ser mais um fracasso entre os que já colecionava, até o disco se tornar o mais vendido do selo independente Polivinyl e entrar em listas de fim de ano, algumas sérias outras meio exageradas.

Isso foi o que eu comecei a escrever quando eu queria falar sobre o Beach Slang: Sabe quando você é criança e se machuca e sua mãe coloca um bandaid em cima? E você fica dando umas olhadas diárias para ver como estava ficando o machucado. Como está a cicatrização. Nunca sara. Até que forma uma casquinha e você cutuca até que a coisa comece a sangrar novamente. Assim é a vida.

Eu não sei o que eu queria dizer com isso, era alguma coisa sobre curas, medo e vontade de se machucar de novo, mas minha perspectiva de mundo mudou bastante após a conquista de Dr. Weiss e Dr. Thorne, os senhores que viraram a noite conversando sobre física ali em cima. Talvez eu ainda demore uns 41 anos para fazer algum sentido.

Dr. Weiss (e) e Dr. Thorne - Foto: Gary Cameron/Reuters

Dr. Weiss (e) e Dr. Thorne – Foto: Gary Cameron/Reuters

“Estava dizendo olá” – Foi o que disse o Dr. Weiss que estava de férias quando viu os sinais das Ondas Gravitacionais em seu computador.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências: