O rock vai mal
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O rock vai mal

Todas nossas referências de rebeldia estão antiquadas e chateantes, o inverso de Serve the Servants, do Nirvana

Alexandre Ferraz Bazzan

17 Março 2017 | 02h47

“A angústia adolescente pagou bem, agora eu estou velho e entediado.” Kurt Cobain morreu jovem, mas sabe-se lá como ele seria atualmente se estivesse vivo. Não importa.

Hoje, Ray Davies se tornou um sir. Ele ajoelhou em uma almofadinha e o príncipe Charles pegou uma espada que ele nunca usou na vida e deu uma batidinha no ombro do cara que compôs You Really Got Me e que chegou a ser banido dos EUA muito tempo atrás. Ele não é o primeiro roqueiro a aceitar essa condecoração ridícula. Paul McCartney, Mick Jagger, Eric Clapton, Roger Daltrey, Robert Plant e Jimmy Page tiveram a mesma “honra”. Em um mundo normal, Charles deveria ajoelhar diante de alguém que tem a capacidade de escrever Waterloo Sunset e não o contrário.

Ray Davies recebe a medalha de sir - John Stillwell/Reuters

Ray Davies recebe a medalha de sir – John Stillwell/Reuters

Do lado de cá do Atlântico, o Pearl Jam está prestes a entrar para o Hall da Fama do Rock n’ Roll e eles espalham aos quatro cantos com muito orgulho e com ingressos que dão direito a experiência VIP. É uma disputa dura sobre qual instituição é mais obsoleta e descolada da realidade, o Hall da Fama ou a monarquia(não só a inglesa). Cara, o Pearl Jam brigou com a MTV, com metade da imprensa, a revista Time, o Grammy e a Ticket Master. Agora eles estão orgulhosos do Hall da Fama.

A Patti Smith, uma das melhores pessoas vivas, lançou há algum tempo o livro Linha M. A obra tem momentos tocantes da vida dela com o marido Fred “Sonic” Smith e o furacão Katrina, mas também tem trechos da mais pura “classe média sofre” ou “white people problem”, como os americanos dizem. Ela reclama da mulher que sentou no lugar dela em um café e também fala das maratonas de séries de detetives.

Aqui no Brasil, os caras que costumavam chocar a sociedade brasileira estão subindo em trio elétrico na Avenida Paulista junto com essa mesma sociedade em um pedido de moralização, vejam vocês. Lobão que, segundo ele mesmo em sua biografia, cheirava cocaína até em velório e o Roger, que me ensinou todos os palavrões possíveis em suas músicas, querem moralizar o País. Ninguém quer corrupção, somos todos contra, mas é como dizia Hemingway: a pessoa que está do seu lado nas trincheiras é mais importante que a própria guerra.

Todas nossas referências de rebeldia estão antiquadas e chateantes, o inverso de Serve the Servants, do Nirvana.