O que houve, Srta. Simone?
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O que houve, Srta. Simone?

Alexandre Ferraz Bazzan

13 de abril de 2015 | 12h40

Pobre, negra, mulher. As três qualidades serviram para que um dos gênios da música no século 20 fosse discriminado, abusado, relegado à solidão e eventualmente ao esquecimento. Foi também o que a obrigou a lutar e buscar sua identidade que, ironicamente, começou a ser formada quando ela se viu obrigada a trocar de nome. Eunice Waymon passou a atender por Nina Simone depois de ser rejeitada em uma escola de música por sua cor. Precisando ganhar dinheiro, a menina começou a tocar piano em bares e não queria que a mãe descobrisse.

Foto: Reprodução

Foto: Reprodução

Com tantas opressões, sua maior tristeza em vida foi não ter sido a primeira pianista clássica negra. Quando ela realizou seu primeiro concerto no Carnegie Hall, em Nova York, um espetáculo organizado por seu marido e empresário, ela lamentou não tocar Bach ou Brahms. O marido, por sinal, se tornou a grande paixão, empresário, o arquiteto de uma carreira brilhante e seu capataz. Ele não só fazia Nina trabalhar ininterruptamente, como também batia e abusava da pianista.

A senhorita Simone, entretanto, não estava disposta a se vitimizar e foi quando ela tomou  frente nos movimentos de direitos civis que ela transcendeu a arte, mas também foi o período em que foi mais atacada. As rádios devolviam os singles de Mississipi Goddam partidos ao meio e se recusavam a executar a canção de protesto mais corajosa do momento. Todos pareciam gostar de Nina quando ela era a doce menina com dedos mágicos que voavam pelo teclado, mas não ficavam tão felizes quando a voz forte levantava problemas que a sociedade insistia em varrer para baixo do tapete. Sem aceitar passivamente os abusos, ela chegou a dizer para Martin Luther King Jr: “Doutor King, eu não sou não-violenta”.

A fúria ao cantar diminuiu justamente após a morte de King e foi substituída por tristeza com o assassinato de tantos que ansiavam igualdade nos anos 1960.

Ao calar essas pessoas, o mundo acabou por afastar Nina do piano. Quando resolveu voltar a dedilhar com toda sua graça, a imagem de uma das maiores artistas tocando em um bar parecia boa demais para ser verdade. Em Paris, ela se tornou figura constante em casas noturnas onde tocava por 300 dólares. Ela só se reergueria posteriormente com a ajuda de amigos. A carreira voltaria a decolar com My Baby Just Cares For Me, mas a tristeza, o olhar duro e a solidão na intimidade permaneceriam até o fim da vida. Talvez por isso ela despedaçava com frequência as pessoas que compareciam a seus shows.

Tudo isso está no documentário O Que Houve, Srta. Simone?. Os cariocas ainda têm a oportunidade de assistir ao filme nesta terça-feira, 14,  19h no festival É Tudo Verdade. A todos os outros resta aguardar que a produção seja liberada no Netflix, mas não deve demorar já que a empresa de streaming faz parte do projeto.

Em uma nota não relacionada, gostaria de avisar aos leitores que agora o Bootleg também está no Facebook. Por lá, além das postagens aqui do blog, eu seleciono músicas diariamente para recordar algum momento da história da música e faço pequenos comentários de acontecimentos da indústria fonográfica. Curta a página aqui.

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