O problema das cartas ao passado é que elas nunca chegam ao destinatário
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O problema das cartas ao passado é que elas nunca chegam ao destinatário

Alexandre Ferraz Bazzan

19 de fevereiro de 2019 | 06h14

Outro dia, quando eu estava indo embora do Estadão, eu e um amigo estávamos reclamando da vida e do jornalismo. Principalmente do jornalismo. “Eu queria escrever uma carta para o meu “eu” jovem e dizer para ele tentar outra profissão”, ele me disse. “O problema é que as cartas enviadas ao passado nunca chegam ao remetente, não, ao destinatário, quero dizer”, eu respondi.

A cantora e compositora Sharon Van Etten, 37 anos, lançou em janeiro um disco que de certa forma é uma tentativa de mensagem para a Sharon de 17 anos, especialmente e obviamente a música Seventeen. A tentativa de viagem no tempo deve atingir muita gente no presente.

Sharon Van Etten e seu novo disco “Remind Me Tomorrow”

Sharon, aliás, deixou a música um tempo para perseguir um diploma em psicologia ao perceber que suas músicas tocavam as pessoas. “As pessoas sempre querem te dizer alguma coisa profunda sobre a vida delas após os shows e como elas se conectam com a música. Eu sentia que eu não era certificada para isso”, disse ela em uma entrevista ao Guardian.

Entre os estudos e o novo disco, que por sinal chama Remind Me Tomorrow, ela ainda achou tempo para ser mãe e atriz em um filme e na série The OA, da Netflix.

Voltando ao disco, Remind Me Tomorrow é o primeiro com o produtor John Congleton e também é o primeiro a explorar influências de música eletrônica. É algo pouco comum no som de Sharon Van Etten, ao menos até agora, mas que deu certo.

Se por um lado ela tenta conversar com uma versão mais jovem dela mesmo em Seventeen e Comeback Kid, ela também usa as experiências do passado e tenta apontar para planos futuros. Um exemplo disso seria Stay, a canção que encerra o álbum.

25 anos de Crooke Rain, Crooked Rain.

Ainda falando sobre viagem no tempo, um dos melhores discos dos anos 1990 comemora 25 anos e a gravadora Matador tem feito uma homenagem bacana no Instagram com depoimentos do Stephen Malkmus, guitarrista, vocalista e principal compositor da Pavement, lembrando da época da gravação de Crooked Rain, Crooked Rain e também postagens de manuscritos dele explicando a origem das músicas.

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Nesse vídeo ele pergunta se o disco vai ter alguma reedição comemorativa e quando dizem que não ele responde: “Esse disco está sempre disponível, não precisa de reedição. É o Dark Side of the Moon da geração X”.

Se você ainda não ouviu o Crooked Rain, eu tenho duas sugestões para você: 1-ouça mais música e 2-vá para o seu serviço de streaming favorito agora e ouça de cabo a rabo. Se você não gostar de Elevate me Later, Cut Your Hair, Gold Soundz e Range Life, eu devolvo o seu tempo perdido.

Brincadeiras a parte, o melhor que eu consegui fazer sobre viagem no tempo foi voltar 1 hora no último domingo. Não mudou muita coisa.

Outra experiência são as memórias do Facebook. Uma espécie de cartas ao futuro que não servem pra nada. As postagens do passado me mostram como eu era mais idiota, minha falta de habilidade em controlar problemas triviais que desapareceriam em breve ou de problemas que continuam existindo e que não adianta chorar, mas, de vez em quando, mostram coisas legais que eu não lembrava.

Dois anos atrás eu descobria a artista visual Jenny Holzer e há 8 anos eu reclamava de alguma ressaca e agradecia aos gângsters e boxeadores por terem inspirado grandes filmes. Mais atual do que Que País é Esse?

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