O Grammy perdeu o bonde da história (de novo)
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O Grammy perdeu o bonde da história (de novo)

Alexandre Ferraz Bazzan

29 Janeiro 2018 | 16h33

Porque o Grammy parecia disposto a fazer algumas reparações para os negros, já que essa era a primeira vez sem um homem branco concorrendo na categoria de disco do ano, a maioria das pessoas acabou esquecendo ou relevando o fato de que as mulheres seguem sendo sub-representadas na indústria fonográfica.

As vitórias recentes de Adele e Taylor Swift maquiaram um pouco a realidade. Nas últimas seis edições, 90,7% dos indicados foram homens e a noite deste domingo não foi diferente. A estreante SZA foi nomeada para cinco categorias e saiu de mãos abanando. Durante a parte televisionada da noite, Alessia Cara foi a única mulher a levar um gramofone individualmente. No principal prêmio, o mesmo. Quatro postulantes eram homens e apenas uma mulher.

Na véspera da cerimônia, surgiu o boato de que Lorde era a única indicada a disco do ano para a qual não foi oferecida a oportunidade de fazer um show solo. O boato parece não ser tão boato quando a mãe da cantora compartilha no Twitter uma matéria do The New York Times sobre a falta de diversidade de gênero.

Se no Globo de Ouro houve um barulho enorme da campanha #MeToo, no Grammy ela foi representada mais discretamente por uma rosa branca na lapela das roupas. Não fosse a apresentação tocante de Kesha, que foi abusada e viveu imbróglio por muito tempo com um produtor que a impedia de seguir com a carreira, o tema não teria sido vocalizado.

Sobre a falta de diversidade na premiação, o presidente da Academia de Gravações disse que só depende delas, que a indústria está aberta a mulheres com criatividade na alma e no coração. Muito bem.

O que o Kendrick Lamar precisa fazer para ganhar na categoria disco do ano?

No ano passado, Adele agradeceu após vencer o disco do ano, falou sobre maternidade e então disse sobre como Lemonade, de Beyoncé, era um disco monumental e que ela tinha vergonha de vencer naquela categoria. No final, ela quebrou um pedaço do seu gramofone e deu para a colega como um ato de respeito.

Kendrick e o seu já clássico To Pimp a Butterfly perderam para Taylor Swift em 2016, mas existia uma explicação lógica: o mercado. Taylor tinha mais apelo, era mais conhecida, tinha vendido mais.

Este ano, a Academia se encaminhava para uma reparação. O rapper tinha 5 prêmios quando Bruno Mars venceu nas categorias música do ano e gravação do ano. A plaquinha de marmelada já estava pronta até antes do último prêmio da noite. Mars é, sem dúvida, um dos maiores talentos da atualidade e ele fez o segundo disco mais vendido de 2017. O primeiro mais vendido? Sim, DAMN., de Lamar.

Ao apontar Bruno Mars como estrela da noite, a Academia ignorou o poder que a música pode ter em mudar o mundo, ignorou a excelência artística, mas também ignorou o apelo mercadológico. Na noite deste domingo, o Grammy mostrou que vai até certo ponto na tentativa de reconhecer talentos, que pode até conceder migalhas aqui e ali, mas que seu conservadorismo se mantém intacto. A principal premiação da música comprovou que segue dois passos atrás da história.

Lamar, por sua vez, segue dando apresentações poderosas e fazendo hinos para serem tocados nas festas, mas também entoados nas ruas pela igualdade racial. Ele é uma espécie de Bob Dylan para toda uma geração de jovens negros, mas o Grammy também ignorou Bob Dylan nos anos 1960. Sem novidade.

Mais vacilos. Todo ano, o Grammy lembra dos artistas que morreram recentemente. Eles deixaram de fora o brasileiro Luiz Melodia, mas também esqueceram de outros músicos como Mark E. Smith, France Gal e muitos outros.

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