O disco perfeito dos Beatles
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O disco perfeito dos Beatles

O novo filme de Danny Boyle resgata a discussão de como seria um mundo sem os quatro de Liverpool

Alexandre Ferraz Bazzan

28 de agosto de 2019 | 20h12

Estreia nesta quinta o filme Yesterday, de Danny Boyle, e a premissa absurda da história suscitou várias questões. A primeira e mais importante é imaginar como seria um mundo sem os Beatles. Outra discussão válida é se existiriam alguns discos de artistas flagrantemente influenciados pelos quatro de Liverpool. O Caderno 2 pensou em alguns clássicos nacionais, mas dá até para ir além. Como seria a invasão britânica ou até os Rolling Stones sem a rivalidade com o “fab four”?

Ed Sheeran sugere no filme trocar “Hey, Jude” por “Hey, Dude”(“Hey, Cara” em português) –  Foto: Jonathan Prime/Universal Pictures

A ideia de uma obra perdida e reencontrada por outro artista não é nova. Existe uma longa teoria que diz que Shakespeare nunca escreveu as próprias peças. Os conspiracionistas alegam que ele não teria estofo cultural para construir um legado tão grande. Alguns dizem que ele seria uma construção de vários autores e outros atribuem a ele a reprodução de algum outro intelectual da época. O filme Anonymous conta a história do dramaturgo inglês se apropriando de textos do conde de Oxford Edward de Vere, que queria usar o teatro popular para mexer com os humores das massas e provocar um levante.

Outra história conhecida é a dos manuscritos perdidos de Ernest Hemingway. Em viagem à Suíça, o escritor americano encontrou um editor que queria conhecer melhor o seu trabalho. Ele pediu para a sua mulher Elizabeth Hadley Richards (a primeira de quatro e a que seria lembrada com saudosismo por ele no livro desabafo/fofoca Paris é uma festa) para pegar um trem e trazer o material. Durante a viagem, a mala foi roubada. O pior foi que Hadley cometeu o erro de levar todos os originais e cópias.

Em uma carta ao poeta Ezra Pound, Hemingway lamenta a perda de seus manuscritos: “Você deve ter ficado sabendo sobre a perda da minha juvenalia? Você provavelmente vai dizer ‘Bom’, mas ainda não me diga isso porque não cheguei nesse nível de humor”. Há quem diga que esse extravio foi fundamental para que o americano passasse de um bom escritor de contos juvenis para um grande novelista.

A maleta roubada nunca foi encontrada, mas fizeram um filme chamado As Palavras, com Bradley Cooper, em que um escritor acha um rascunho tão bom que ele decide publicar em seu nome. Apesar de ficar famoso, ele tem que conviver com a mentira o resto da vida.

Não existe glória mais fácil do que se apropriar da obra de outra pessoa e a música está cheia disso. O caso mais recente é a banda Gretta Van Fleet. Como diz o ditado, ladrão que rouba ladrão tem 100 anos de perdão.

O filme Yesterday, entretanto, levanta uma nova possibilidade. O músico vai lembrando das composições dos Beatles em um mundo onde eles nunca existiram. É como se ele estivesse compondo enquanto lembra das melodias. Fiquei pensando em como eu arranjaria os clássicos e a coisa mais óbvia seria gravar tudo na ordem original. Só que abrir a carreira com a letra “Ela tinha apenas 17, você sabe o que eu quero dizer” não seria a melhor ideia em 2019.

A Hard Days Night/NYT

Então comecei a pensar na hipótese de começar com uma espécie de um “best of”. Um álbum com as melhores canções de Lennon e McCartney(e alguma contribuição de Harrison). Meu primeiro levantamento daria para no mínimo 5 discos. É uma carreira maior e mais brilhante do que grande parte dos artistas consegue ter.

Com muita dor no coração fui cortando até chegar em 18 músicas. Um disco duplo de estreia? Provavelmente nenhuma gravadora lançaria um disco duplo de um artista novo, eu teria que publicar no Bandcamp ou algum outro serviço de streaming de forma independente. Será que eu ficaria famoso como o personagem Jack Malik?

E vocês? Como construiriam suas carreiras se tivessem disponível todo o acervo dos Beatles?

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