O dia em que a música morreu
As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

O dia em que a música morreu

Há 56 anos um avião caía levando Buddy Holly, Ritchie Valens e J.P. Richardson, o Big Bopper

Alexandre Ferraz Bazzan

04 de fevereiro de 2015 | 00h19

Foto: Reprodução

Foto: Reprodução – Buddy Holly

Três dos mais importantes nomes da música faziam uma turnê de ônibus juntos pelos EUA. Em um dia congelante, Buddy Holly decidiu alugar um avião para levá-lo ao próximo destino, luxo que talvez só ele pudesse arcar. Acontece que a aeronave tinha quatro lugares, excetuando o dele e o do piloto, mais duas pessoas poderiam viajar. O Big Bopper era o primeiro escolhido, a segunda vaga ficou entre Ritchie Valens e mais uma pessoa, provavelmente alguém da banda de Holly. “Vou jogar a moeda, e quem vencer vai poder dormir em uma cama quente hoje, quem perder vai ter que congelar o traseiro naquele ônibus”, diz um Buddy Holly romanceado no filme La Bamba (1987). Você pode ver a cena com 1:54 do vídeo:

O “sortudo” foi Ritchie Valens, que morria de medo de aviões, mas que, para fugir do frio, ficou feliz em voar.

Com apenas 22 anos, Buddy Holly tinha conseguido deixar uma marca tão forte no rock n’ roll, que os Beatles batizaram sua primeira versão de The Crickets, nome da banda de apoio de Holly. Quando eles decidiram ter um nome próprio, não voaram muito longe, de Crickets (grilos) passaram a Beatles (besouros). Valens ainda estava iniciando a carreira. Com 17 anos, idade quando morreu, ele já tinha dois sucessos tocando nas rádios: a explosiva La Bamba e a balada em homenagem à namorada, Donna. A capacidade musical dos dois com uma idade tão tenra dá ideia do tamanho da perda. De quebra, Buddy Holly ainda inventou o visual geek que é copiado até hoje.

Não à toa, Don Mclean cravou que a música havia morrido em 3 de fevereiro de 1959. American Pie tem mais de oito minutos, mesmo assim, foi um hit instantâneo- melodia e história caminhando juntos como talvez somente Bob Dylan poderia fazer de maneira tão competente e popular. Certa vez, em uma entrevista, um repórter perguntou a Mclean qual seria o significado da canção tão famosa. “Significa que eu nunca mais preciso trabalhar se eu não quiser”, respondeu ele ironicamente. De fato, cantar um pouco da história da música rendeu bem ao cantor.

Abaixo um clipe com o significado da letra:

Quando comecei minha coleção de discos de vinil, um dos primeiros exemplares que comprei foi um single de American Pie. De tão grande a música, você precisa virar o lado para escutar na íntegra. Mais tarde eu encontraria o disco completo que também tem a balada de cortar o coração, Vincent, uma homenagem ao pintor holandês, Vincent Van Gogh.

Atualização – A música une

Não sei se o leitor conhece a máxima do beisebol. É um jogo que não tem relógio, que só acaba quando termina e que não tem hora para terminar. Os americanos viciados no esporte costumam dizer que não se marca compromisso para depois de uma partida de beisebol. O jornalismo é de alguma forma parecido. Você sabe a hora que vai entrar na redação, mas, como a notícia não pode esperar, sabe-se lá quando será o fim do turno. Ontem acabei passando quase todo o dia no Estadão porque tive que esperar os companheiros para gravar o segundo episódio do podcast Refrão, que vai ao ar amanhã. A primeira edição você pode ouvir aqui, e eu sou o cara de Ribeirão Preto que fala arrastado e puxando o “R”.

Saí da redação para tomar uma cerveja, e por volta de 22h o amigão Alexandre Mastrocinque, que já entrou anonimamente em algumas postagens deste blog, me manda uma mensagem de whatsapp: “Hoje a música morreu.” Cheguei em casa por volta de 23h30 e achei que tinha que escrever ainda no dia 3 de fevereiro, senão não seria uma homenagem adequada a Buddy Holly.

Fiquei mais que feliz com a correção feita pelos leitores Edi Cavalcante e Eduardo Hollanda que lembraram que o nome dos Beatles era Beetles e não Crickets, e que mudaram para Beatles por causa de beat (batida) por sugestão do empresário e quinto Beatle, Brian Epstein. Eu li isso em um livrão que tenho dos rapazes de Liverpool, só que como li há mais de dez anos posso ter me confundido. O leitor Douglas de Souza Aguiar Jr. lembrou ainda que quem se safou da fatídica viagem oi o guitarrista da banda de Holly, Tommy Alsup, ainda vivo. O wikipedia dizia que o guitarrista em questão era a instituição do country, Waylon Jennings, achei que essa informação estava errada, por isso deixei em aberto aqui.

Desde o começo, a ideia do blog era compartilhar experiências sobre música e principalmente de shows, e quando eu digo compartilhar, quero dizer dividir com as pessoas e também ler e saber sobre as experiências delas. Quando isso acontece, como agora, é muito gratificante.

Ainda sobre o Don Mclean, minha mãe ouviu na TV, semana passada, a maravilhosa Vincent e quis porque quis comprar o disco de American Pie. Rodou lojas em Ribeirão Preto tentando encontrar, mas sem sorte. Ontem leu esse texto, porque ela é uma das 7 pessoas que me acompanham, e ficou aliviada quando soube que o filho poderia fazer uma cópia para ela. Dessas coincidências que dão graça à vida e que, talvez, somente a música e a arte possam proporcionar.

Foto: Alexandre Bazzan

Foto: Alexandre Bazzan

 

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências: