Nunca é tarde
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Nunca é tarde

Continuar trabalhando não tem nada a ver com gerontocracia e quem gosta de ídolos deveria ir à igreja aos domingos, não a shows de rock

Alexandre Ferraz Bazzan

21 Outubro 2015 | 12h18

O Estadão tem um dos melhores suplementos de toda a mídia brasileira, o Aliás. Não é fácil escrever alguma coisa ali. Os textos longos, e brilhantes, com frequência preenchem todo o espaço disponível no papel, mas, sabe como é espaço, de vez em quando sobra. No último fim de semana deve ter acontecido isso. Chamaram o André Forastieri para escrever sobre a aposentadoria de David Bowie dos palcos.

Todos os leitores de redes sociais se apressaram em crucificar um dos críticos mais legais do Brasil pelo título, “Já vai tarde”, associado à imagem de David Bowie. O texto, para quem não teve preguiça de ler, fala da importância do camaleão para o rock e o pop. Um verdadeiro ícone, e é aí que eu começo a discordar.

Foto: Reprodução

Foto: Reprodução

Em primeiro lugar, não há nada nesse mundo que o Bowie possa fazer para macular o que ele construiu durante anos. O caso mais claro disso é Michael Jackson. O rei do pop fez de tudo para jogar sua história na lata do lixo. Ele gravou canções que não chegavam nem perto do que ele fez no auge, se envolveu em escândalos de supostos casos de pedofilia que foram resolvidos em acordos judiciais e, antes de morrer, tentou voltar aos palcos, o que gerou um documentário insuportável. Mesmo assim continuamos ouvindo sua música e imitando suas danças.

É óbvio que Bowie não vai lançar outro Hunky Dory, assim como o  Bob Dylan não vai gravar um novo Highway 61 Revisited, mas tudo bem. Se eles lançarem The Next Day e Together Through Life, discos que caem longe do brilhantismo de outrora, já temos o que ouvir de casa para o trabalho por um punhado de dias.

Imaginem vocês que Neil Young, em 1989, após lançar Eldorado, pense: “Tenho mais de 30 anos de carreira. Estou velho”, e se aposente. Após álbuns pouco elogiados nos anos 1980 e brigas com a gravadora, não seria algo impensável. Ele provavelmente também já estava rico e não precisava de fazer algo novo ou sair em turnê, mas fez. Rockin’ In The Free World, de Freedom (também de 1989), é um dos clássicos de Young e deu gás para que surgissem os ótimos Harvest Moon e Mirror Ball.

Tudo bem, o texto de Forastieri foca principalmente na aposentadoria das turnês. Entretanto, se os Beatles melhoraram quando pararam de fazer shows e Harry Nilsson tem uma discografia pop excelente sem nunca ter pisado em um palco, outros artistas se nutrem de apresentações ao vivo. Não há regras para isso, o músico pode se resguardar, fazer shows porque quer ou até para levantar uma grana. A decisão final é sempre dele. O rock, ao contrário do cristianismo, não precisa de um ídolo imaculado e congelado com 33 anos.

O picadeiro precisa de mais palhaços como Keith Richards. Quando o Kiss voltou para fazer o acústico da MTV, os críticos caíram matando. Alguns sentiam falta da maquiagem, outros achavam que eles estavam velhos demais para isso. De lá para cá, eles fizeram discos novos e é difícil dissociar os caras de apresentações ao vivo. Sempre, antes de suas entradas triunfais, um anúncio é feito: “Vocês querem o melhor… Vocês terão o melhor” e há quem jure que isso é verdade até hoje.

São muitos os casos de artistas encantando na terceira idade. Patti Smith arranca lágrimas dos mais insensíveis com seu show especial de Horses. Iggy, amigo de Bowie, passou por aqui um dia antes de Forastieri chamar o corpo do camaleão de carcaça e Keith Richards e Ozzy de palhaços. Provou que não deve nada para bandas iniciantes.

Por fim, gostaria de lembrar Leonard Cohen. Ele havia se aposentado dos palcos quando foi passado para trás por sua empresária. Por dinheiro, ele voltou a cantar ao vivo e isso deu nova vida à sua carreira, inclusive com novos e tocantes registros desse retorno, o mais recente deles Can’t Forget: A Souvenir of the Grand Tour. Joshu Sasaki Roshi, o guru zen de Cohen, morreu aos 107 anos e, aos 90 e muitos, ele disse: “Desculpe por não morrer”, frase repetida pelo pupilo de 81.

Um artista continuar na estrada não tem nada a ver com gerontocracia, mas sim com sobrevivência, com exercer sua profissão e fazer o que gosta. Se uma banda iniciante precisa que os veteranos morram ou se aposentem para ter relevância, talvez ela não mereça atenção.

Os estágios da vida por Leonard Cohen(em relação ao sexo oposto): Irresistível, resistível, transparente, invisível, repulsivo e convalescente.

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