‘Ninguém que vocês conhecem’
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‘Ninguém que vocês conhecem’

Bob Mehr conta a história dos Replacements da infância ao fim da banda no livro 'Trouble Boys'

Alexandre Ferraz Bazzan

15 Março 2017 | 17h21

Paul Westerberg (e), o autor Bob Mehr e Tommy Stinson

Paul Westerberg (e), o autor Bob Mehr e Tommy Stinson

Após o último show dos Replacements, no dia 4 de julho de 1991, em Chicago, Paul Westerberg entra em uma limousine, enquanto o baixista Tommy Stinson volta para o ônibus que o deixaria de volta em Minneapolis. Eles se despedem com um casual “te vejo por aí”. No ônibus, no lugar do nome da banda, que costuma estampar os letreiros nas turnês, apenas a frase: “Ninguém que você conhece”. A atitude autodepreciativa e o comportamento errático fez com que, de fato, eles não fossem longe(em termos de venda de discos e sucesso comercial), agora, o jornalista Bob Mehr vai fundo na história dos americanos para explicar de forma detalhada a carreira da banda.

“Os Replacements não são obscuros, muito se escreveu sobre eles, mas eu não acho que um livro tenha investigado a história deles de forma completa. Achei que seria importante conhecer quem eles realmente eram”, diz ele sobre a motivação para o projeto que durou oito anos do início até a publicação. “Eu comecei o processo em 2007 conversando com Paul e Tommy sobre a participação deles e se eles estariam dispostos a fazer isso, porque historicamente eles sempre foram muito relutantes em participar de qualquer livro.”

Os Mats, como são conhecidos pelos fãs(Replacements – Placemats – Mats), tinham a terrível fama de serem a melhor ou a pior banda do mundo dependendo da noite. Trouble Boys mostra as constantes cobranças das gravadoras para que eles fossem mais profissionais e a resposta de Westerberg era sempre a mesma: “Você não vai ter 100%”. A atitude de rebeldia se mostra depois algo entre a honestidade com o público e a luta contra a depressão. Em determinado ponto, ele explica que não consegue se sentir bem todas as noites e que não encenaria uma performance simplesmente para agradar as pessoas. Nessas noites ruins, os shows geralmente eram recheados de versões de outras bandas e nem sempre tocadas da melhor maneira. É um desses covers que empresta o nome ao livro, Trouble Boys, de Dave Edmunds.

Poucos são os casos de uma mudança musical tão grande. Geralmente uma banda encontra o seu som e fica com ele até o fim. Algumas fazem disso sua marca registrada, outras se repetem ao ponto de ficarem irrelevantes. Os Replacements começaram como uma banda punk, que aos poucos foi inserindo rock clássico ao som até se aproximar do folk rock. Abaixo, três momentos bem distintos da carreira deles:

I’m In Trouble e Don’t Ask Why, que estão no primeiro disco Sorry Ma, I Forgot to Take Out the Trash, mostram o início acelerado e gritado deles.

Eles foram banidos do programa de comédia Saturday Night Live, que até hoje traz atrações musicais. Paul Westerberg fala um palavrão (“fucker”) para lembrar Bob Stinson do solo de Bastards of Young, um hino da geração X americana, que venderia como água se tivesse sido lançado nos anos 1990.

Skyway é sobre passarelas de pedestres e amor não correspondido. É uma das incríveis baladas que Paul tinha vergonha de mostrar no começo da carreira, mas que se tornaram marcas registradas na discografia deles. Está no álbum Pleased to Meet Me, o sexto deles e a última obra prima antes de dois trabalhos regulares.

Paul e Tommy são os únicos integrantes que permaneceram até o fim da banda , em 1991, e que estiveram presentes na reunião deles entre 2013 e 2015. Então, é curioso que Mehr tenha escolhido o irmão de Tommy, Bob Stinson, como o fio condutor do livro, mas se justifica pela complexidade do guitarrista e por ele ter ensinado o caçula a tocar baixo e ter fundado o grupo, que incialmente se chamava Dog Breath. “Bob era muito essencial para as raízes e identidade”, explica o autor e completa: “foi seu desespero e desejo de superar os traumas de infância por meio da música que fez ele perseguir o rock n roll e ter uma banda.”

E foi exatamente a história de Bob a mais difícil de recuperar, não por falta de informações, mas pelo teor trágico de sua trajetória. “Obviamente foi muito difícil para a mãe e a irmã de Bob, porque a vida dele foi cheia de triunfos, mas também foi muito trágica e ele morreu muito jovem, aos 35 anos, então foi muito difícil para a família relembrar isso. Em muitos casos, essa era a primeira vez que eles falavam sobre alguns assuntos.”

Assim como acontecia com a banda, Bob também era muito estigmatizado, até mais que os companheiros. A figura do guitarrista grandão, que se vestia de forma engraçada e era usuário pesado de drogas era um prato cheio para os críticos. “Era muito importante que eu o deixasse tridimensional como artista, homem e uma pessoa que teve muitas dificuldades na sua vida, mas que foi bem sucedido em deixar um legado”, conta Mehr sobre a construção da história.

Paul Westerberg durante show no Roundhouse, em Londres, na turnê europeia de 2015.

#thereplacements #roundhouse #paulwesterbergisgod

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I Will Dare, no Festival Shaky Knees, em Atlanta, em 2014 – um dos hinos da banda.

Na presença de Deus #thereplacements #mats #shakyknees #shakykneesfestival #iwilldare

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A “paranoia” de Paul Westerberg. O epílogo conta um pouco sobre a vida dos integrantes após o fim da banda. Tommy fez alguns bons discos e até trabalhou como atendente de telemarketing antes de virar baixista e o “general” de Axl no Guns n’ Roses. O baterista Chris Mars virou um artista plástico de sucesso. Bob teve um final triste com a morte precoce e Slim Dunlap(que substituiu Bob quando ele deixou a banda em 1986) seguiu tocando até ter o AVC que, indiretamente, reuniria Tommy e Paul.

Paul fez a trilha sonora para Vida de Solteiro e outros filmes e também lançou discos solos que tiveram reconhecimento similar aos dos Replacements, mas, talvez, com volume de vendas ainda menor. Em determinado momento, ele começa a perceber que está sendo copiado, mesmo que não deliberadamente, pelas vozes da nova geração. De Green Day a Nirvana, passando pelo Goo Goo Dolls, todos têm um pouco do que ele criou durante os anos 1980. Ele comenta com seu psiquiatra que se sente desprestigiado com aqueles que o seguiram ganhando milhões e ele não. A primeira reação do analista é de ceticismo, encara como uma paranoia do cantor, guitarrista e compositor. “Ele deve ter escrito ‘lunático’ no bloquinho”, conta Westerberg a Bob Mehr no livro. Não demora muito para o analista perceber que realmente Paul havia influenciado muitos artistas.

Mas, se Westerberg enxergava sua voz nos jovens roqueiros, no início da carreira, ele nem reconhecia a sua própria voz. “No começo eles eram uma banda punk e esse não era o tipo de ambiente em que você se proclamaria como um artista. As habilidade de Paul como compositor cresceram muito rápido, mas acho que faz parte da natureza dele e das pessoas do meio-oeste americano, especialmente as pessoas de Minnesotta, de jogar para baixo suas ambições e talentos”, explica Mehr.

Cadeia, morte ou faxineiro. Essas eram as opções consideradas por Westerberg fora do rock n’ roll. O desespero de fugir disso era algo compartilhado pelos irmãos Stinson e foi a cola que uniu a banda. “Para algumas pessoas, rock n’ roll é só um escape e eu acho que começou assim para o Paul. A princípio, rock n’ roll era só uma forma de ele não ter que ser um faxineiro até o fim da vida, mas, eventualmente, ele percebeu que existia mais. Demorou alguns anos para que ele aceitasse isso.”

Bob Mehr viveu por seis anos a história dos Replacements e seus integrantes e, por causa disso, acabou convivendo bastante com Paul e Tommy. Ele acredita que os dois ainda têm muito a oferecer para a música e acha possível que eles voltem a se reunir, mas diz: “Se eles nunca mais fizerem nada juntos, eles já fizeram o suficiente.”

Capa do livro Trouble Boys

Capa do livro Trouble Boys

O making of do livro abaixo: