Ninguém entendeu Belchior
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Ninguém entendeu Belchior

Dos jovens que adotaram a poesia do cearense aos jornalistas obcecados com o sumiço e as dívidas do cantor, todos parecem passar ao largo do significado da obra que ele deixa

Alexandre Ferraz Bazzan

30 Abril 2017 | 21h34

O músico Belchior durante entrevista na redação do jornal O Estado de S. Paulo, em 1986 – Foto: Antônio Lucio/Estadão

Pouco depois do impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff, algumas pichações viralizaram na internet com a mensagem : “Fora, Temer – Volta, Belchior”. Ao mesmo tempo, as músicas do cantor de Sobral se tornaram obrigatórias em todas as festas frequentadas por jovens progressistas e de esquerda na cidade de São Paulo.

Me parece que nesse caso a mensagem está um pouco fora de lugar. Nos anos 1970, enquanto muitos ainda experimentavam a expansão dos sentidos com as drogas, Belchior dizia: “A minha alucinação é suportar o dia-a-dia e o meu delírio é a experiência com coisas reais”. Em Como Nossos Pais, ele fala de mudança, mas sentencia: “Ainda somos os mesmos e vivemos como os nossos pais”. Uma crítica, mas também uma constatação.

Em uma entrevista, ele disse, certa vez, que a sua obra é biográfica de um personagem que ele criou que não é ele, mas que ele se identifica bastante com esse personagem. Ou seja, são visões em terceira pessoa, mas uma terceira pessoa bem parecida com ele.

As músicas são repletas de tristeza, de niilismo, de vontade de mudança, mas também de desilusão e reconhecimento de algumas derrotas: “Eles venceram e o sinal está fechado para nós, que somos jovens”. É contraditório que sua poesia seja usada como motor de protesto nos bares boêmios da cidades. Faria muito mais sentido ouvir Belchior no escuro do quarto, como consolo, mais que isso, como aquele amigo que entende tudo que deu errado.

Por outro lado, a insistência em colocar o desaparecimento dele como peça de sua obra e o dedo na ferida das dívidas que ele teria deixado, também parece menosprezar a importância de um dos maiores compositores da música brasileira. De que me importa saber onde ele morava ou em quantos mil reais está a dívida de estacionamento de seu Mercedes no aeroporto de Congonhas? Em uma entrevista para o Fantástico, em 2009, ele diz que não é uma celebridade, que não tem interesse na vida pessoal de ninguém e muito menos em expor a dele.

No meio dos anos 1970, Belchior morava de favor na casa em reforma de um amigo. Elis Regina queria gravar jovens artistas para o show Falso Brilhante e convidou o cearense para um jantar. “Eu não posso gravar uma fita para a senhora porque eu não tenho violão, eu não tenho gravador… e não adianta a senhora me convidar para a sua casa porque eu não tenho dinheiro para ir de ônibus”, disse ele para a cantora. Ela mandou um carro apanhar o compositor e, em uma noite, ele fez uma demo com todas as canções do que viria a ser o álbum Alucinação, sua pedra fundamental. Elis ouviu as gravações por uma noite e decidiu que tomaria para si Velha Roupa Colorida e Como Nossos Pais.

Como Nossos Pais se tornou a música mais conhecida da carreira brilhante de Elis, um símbolo contra a ditadura e levantou Belchior ao patamar de grande compositor. Essa história, por si só, já deveria ser mais importante do que qualquer outro aspecto da vida pessoal do cantor.

Na hora da morte, lembrar de dívidas ou insinuar que ele fugiu delas me parece mesquinho. Ao menos agora, esses críticos podem dormir tranquilos. Belchior está morto, ele não deve mais nada a ninguém.