New Order: a banda que fez a trilha sonora para as festas que eles não queriam estar
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New Order: a banda que fez a trilha sonora para as festas que eles não queriam estar

Banda disponibiliza versão rara de 'Ceremony', o primeiro single pós-Joy Division

Alexandre Ferraz Bazzan

29 Janeiro 2019 | 02h16

Peter Hook observa Bernard Sumner, hoje os dois travam briga judicial

O Joy Division ajudou a criar e pavimentar alguns dos estilos que se consolidariam no cenário alternativo dos anos 1980, especialmente o pós-punk, e quando a banda provavelmente colheria algum sucesso comercial nos EUA, o vocalista Ian Curtis se enforcou.

Em uma entrevista de 2017, o ex-baixista Peter Hook disse que a decisão mais acertada do New Order foi ignorar o Joy Division.  A única ponte entre as duas bandas talvez seja Ceremony. O primeiro single do New Order foi tocado em shows do Joy Division, quando Ian Curtis ainda era vivo. A ponte, entretanto, não entrou no disco de estreia: Movement.

Mas se o New Order acertou ao se distanciar do Joy Division(letras mais etéreas, mas menos sombrias e guinada para a música eletrônica sendo as principais diferenças(além é claro de Gillian Gilbert nos teclados e Bernard Sumner no lugar de Ian Curtis nos vocais)), todo o resto eles fizeram errado. Impressionantemente, deu certo. Eles foram, ao lado dos Smiths, a banda inglesa mais popular da década de 1980.

Os erros. Bernard Sumner, Peter Hook e Stephen Morris fizeram primeira a viagem para os EUA em 1980 com algum atraso após a morte de Curtis. Tentando encontrar uma voz, eles tiveram todo o equipamento furtado.

A namorada de Morris, Gillian, entrou para a banda e Sumner assumiu os vocais. Hook diz que foi Sumner também quem empurrou a banda para o som mais eletrônico. O resultado não foi um sucesso imediato, mas quando foi, gerou prejuízo. Um dos singles do segundo álbum Power, Corruption & Lies entrou para a história.

Capa do single ‘Blue Monday’

Blue Monday é até hoje o single de 12 polegadas mais vendido da história, mas como a elaborada capa ficava mais cara do que o preço do disco na loja, cada unidade dava um prejuízo de 5 centavos. Com mais de 700 mil cópias vendidas, o buraco foi maior que 35 mil libras, em uma época em que a banda estava longe de nadar em dinheiro.

Mesmo com todos os erros, o New Order ajudou a levar a música eletrônica a novos patamares e praticamente criaram a cultura rave. O curioso é que quando se pensa em New Order, você raramente imaginaria algum de seus integrantes às 5h da manhã chapados de ácido lisérgico ou alguma outra droga. A imagem deles, especialmente no início de carreira, sempre foi de rapazes com cortes de cabelo iguais ao do seu contador, que você só encontra no começo de cada ano quando tem que declarar o imposto de renda. A imagem que se tem deles não poderia ser mais distante do som que sai das caixas de som quando você coloca a agulha em um bolachão de Brotherhood(ou apenas aperta o play no spotify nos dias de hoje), por exemplo.

Você nunca vai ver um tipo como Bernard Sumner rodando malabares com os olhos esbugalhados e a mandíbula cerrada. A impressão é de que eles criaram o som que virou trilha sonora para as festas as quais eles jamais gostariam de ir. Ao criar essa cultura, eles praticamente criaram essas festas. Eles podem e devem ter usado todas as drogas disponíveis, mas isso nunca fez parte do histórico deles, eles nunca foram daquelas bandas que se internam em centros de reabilitação e têm uma recaída por mês. Era tudo feito na surdina, todos os excessos descritos por Peter Hook.

Para falar a verdade, apesar de ter dançado muito as batidas de Blue Monday e Bizarre Love Triangle, eu também nunca quis ir a essas festas, mas ainda te anima quando algumas dessas músicas tocam no carro no meio do trânsito e levantam qualquer pista enfadonha.

O disco de estreia dos caras, Movement, vai ganhar uma versão deluxe, como eles chamam todos os relançamentos com material que se perdeu pelo caminho, e por esse motivo o New Order compartilhou uma rara apresentação ao vivo de Ceremony. Essa versão na União dos Estudantes da Universidade de Manchester aproxima um pouco mais eles do Joy Division e em alguns momentos, quando a luz esconde o rosto de Bernard Sumner, ele lembra um pouco Ian Curtis. É altamente nostálgico, um pouco triste até se você for parar para pensar nos tempos em que ainda fazia sentido o New Order, mas totalmente excelente. Assista: