Minha memória é uma fita cassete (uma playlist)
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Minha memória é uma fita cassete (uma playlist)

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Alexandre Ferraz Bazzan

03 de abril de 2019 | 19h20

Durante a corrida espacial os americanos criaram um projeto para desenvolver uma super caneta. Com a gravidade zero os astronautas não conseguiam fazer suas anotações uma vez que a tinta flutuava e não chegava até a ponta. Foram milhões gastos até chegar a um protótipo que funcionasse. Na época não existia o Twitter, senão o hashtag #suckitrussiawegotapen seria trending topic. Mas a União Soviética não poderia ficar atrás. O comunismo precisava dar uma resposta rápida, por esse motivo, eles foram até uma papelaria e pagaram 5 centavos em um lápis que, apesar de não ter o mesmo glamour, fazia o mesmo serviço.

Walt Cunningham, astronauta da Apolo 7, primeira missão a usar a caneta espacial – Foto: NASA

Essa história é tão interessante quanto falsa. Na verdade os dois projetos espaciais usavam grafite – EUA lapiseiras e União Soviética lápis. O problema é que pedaços de grafite ficavam flutuando quando uma ponta quebrava e o material é extremamente inflamável, e isso poderia colocar a vida dos astronautas em risco. Em 1965, o empresário Paul C. Fisher desenvolveu a caneta espacial que escrevia na gravidade zero, de ponta-cabeça, embaixo d’água e em ambientes com altas temperaturas. Ele vendeu por US$ 2,39 a unidade para americanos e russos igualmente.

Desde os tempos das cavernas os homens têm essa obsessão por registrar seus feitos e sempre existiu essa dualidade do grafite contra a tinta. Ok, nem sempre, mas já faz tempo que tem. A tinta tem essa perenidade, se você erra tem que rasurar, não dá para apagar o que tá escrito. Nas provas tem sempre aquele engraçadinho que diz: “Fessora, pode fazer a lápis?”. É o medo de errar e errar feio. Na minha época existia o lápis borracha, que era uma fraude. Ele perfurava o papel, mas não apagava direito o que estava escrito. Depois veio o errorex ou liquidpaper, que a juventude agora gosta de chamar de branquinho. Talvez branquinho seja mais conveniente mesmo, porque aquilo definitivamente não é um papel líquido e errorex é o que você pode pensar sobre algum ex-namorado que ainda te perturba.

Acontece que o grafite também não é apagável, sempre fica aquele resquício do que você escreveu antes, como aquela lousa que o professor escreve e apaga, e no final você ainda consegue enxergar resquícios do começo da aula, ou aquela fita cassete que você gravava Guns n’ Roses por cima do Barry Manilow que sua mãe tinha comprado, era só colocar um durex nas pontas que você conseguia reutilizar. Depois de gravar umas 5 ou 6 vezes e finalmente colocar o Cobain por cima do Axl, você ainda ouvia alguma interferência do Van Halen e até do Barry Manilow inicial.

Assim foram todas as tecnologias graváveis: o vhs, o k7, o disquete duro e flexível, o cd-r, e, enquanto eu escrevo esse ensaio, o hd ou servidor combinam zeros e uns para que eu possa mandar essa mensagem para você.

Filme Alta Fidelidade – Foto: Reprodução

Mas para que tantos registros? Para criar memória. Minha memória é como uma fita cassete, ela retém resquícios de quando ela era limpinha, mas a cada nova memória, o que aconteceu lá trás vai ficando mais nebuloso. É bom esquecer algumas coisas, mas lembrar é fundamental. Lembrar de casamentos, de um show memorável, da despedida de alguém que foi fazer intercâmbio, do time que foi campeão ou daquelas férias que mudaram a sua vida. Para lembrar que a história do lápis soviético é falsa, que nazismo não é de esquerda e que a ditadura militar foi um golpe, sim.

No fim das contas tudo é semi apagável ou pelo menos danificável, mas nada some, assim como os livros em Fahrenheit 451, do Ray Bradbury.

PS-Essa playlist tem apenas algumas músicas que eu estou ouvindo bastante atualmente. Elas vão ajudar a criar uma nova memória.

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