Laura Jane Grace fala sobre a 1ª turnê da Against Me! no Brasil e o lançamento de ‘Tranny’ em português
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Laura Jane Grace fala sobre a 1ª turnê da Against Me! no Brasil e o lançamento de ‘Tranny’ em português

A vocalista ícone do movimento LGBT e do punk rock conversa com exclusividade com o 'Estado' sobre seu livro, a visita à América do Sul e Cazuza

Alexandre Ferraz Bazzan

06 Junho 2018 | 14h30

Após 20 anos de carreira, a banda Against Me! finalmente toca na América do Sul. Serão cinco shows, sendo três no Brasil – Curitiba, São Paulo e Natal(informações completas ao fim da entrevista)- e outros dois nos vizinhos Argentina e Chile.

Liderados por Laura Jane Grace, os músicos de Gainesville, na Flórida, vão apresentar ao público brasileiro o disco Shape Shift With Me, mas também devem lembrar os outros seis álbuns. “Nós costumamos mudar o set sempre. É uma forma que fica interessante para nós e para a plateia. Nós tocamos de tudo”, explica Laura.

Shape Shift With Me, de 2016, segundo a cantora, guitarrista e compositora, é uma resposta a Exile On Main St. dos Rolling Stones, Exile In Guyville da Liz Phair e A Grand Don’t Come For Free do The Streets. São todos discos sobre relacionamentos, amor e sexo do ponto de vista de uma pessoa cis e ela queria mostrar a visão de uma mulher trans. Mas, se a composição é íntima e muito pessoal, os temas são universais. “Algumas pessoas podem não querer escutar minha música por não se identificarem com uma vocalista trans, mas o que elas deveriam perceber é todos somos iguais e queremos as mesmas coisas. Todo mundo quer ser amado, ninguém quer ficar sozinho, não importa se você é hetero, gay ou trans”, diz ela. O álbum é o segundo lançado desde quando ela comunicou publicamente que era uma mulher transgênero, em 2012. O primeiro foi Transgender Dysphoria Blues, de 2014.

Laura Jane Grace – Foto: Jonathan Minto

Compositora, vocalista, guitarrista, ativista e agora escritora. Também em 2016, a líder da Against Me! publicou um livro de memórias, que vai ganhar versão em português a ser lançada no dia 17 de setembro. Tranny: Confissões da Anarquista mais Infame e Vendida do Punk Rock conta a história da banda e a transição de Laura. O texto intercala relatos em primeira pessoa com diários que ela escreveu desde os 8 anos de idade, três anos depois de se reconhecer como mulher ao ver uma apresentação de Madonna na TV.

Como todos os diários eram manuscritos, a autora levou um ano inteiro apenas para ler e datilografar tudo e outros três para editar o conteúdo. “Eu tinha caixas e mais caixas de cadernos e sabia que ali tinha uma boa história. O problema é que eu tinha material demais e precisava saber o que deixar de fora. Além disso, o trabalho de digitação foi pouco criativo, como um dia fechado em um escritório. Algumas vezes eu tinha dificuldade de identificar minha própria letra por ter escrito bêbada quando era mais jovem”, brinca.

Laura conta que ficou apavorada depois de entregar a versão final para a editora, mas ao mesmo tempo teve uma sensação de alívio. “Todas as pessoas que escrevem diários geralmente têm medo que alguém leia aquilo, escondem o caderno. É como se esse medo fosse embora porque ninguém mais poderia roubar isso ou dizer algo sobre aquilo porque você já disse. Foi como se eu tirasse um peso e pudesse começar de novo”.

Esse deve ser o primeiro de muitos livros. Ela segue escrevendo diários e, mais que isso, vivendo e criando novas memórias para o futuro: “Talvez eu me torne uma escritora quando for mais velha e não puder ouvir bem”.

Ativismo LGBT. Na última terça-feira, 5, a suprema corte dos EUA decidiu em favor de um confeiteiro que se recusou a fazer um bolo para um casamento gay alegando questões religiosas. Para Laura, o país deu alguns passos para trás desde que Trump foi eleito e ela comenta o caso: “Uma pessoa gastar anos de sua vida nos tribunais para não fazer um bolo para alguém é insano. Quão triste e patético você é se esse é o ponto que você está tentando provar?”.

Em um caso não relacionado, a cantora protagonizou uma cena histórica na música e na luta LGBT em 2016. Neste ano, o Estado da Carolina do Norte aprovou uma lei que proíbe as pessoas trans de usarem os banheiros públicos dos gêneros com os quais se identificam. Com a mudança, as pessoas são obrigadas a seguir o gênero da certidão de nascimento ao usar os toaletes de tribunais, escolas, bibliotecas, cinemas etc. Pois bem, Laura subiu ao palco de uma casa noturna de Durham e colocou fogo em sua certidão de nascimento. “Adeus, gênero”, disse ela sorrindo para o documento em chamas antes de tocar I Was a Teenage Anarchist, um clássico da sua banda.

O gesto simbólico foi noticiado nos sites de música, mas também nos grandes jornais do país. “Como é que pessoas do governo querem me dizer que aquilo define quem eu sou? É tão ridículo. É só um pedaço de papel”, lembra a vocalista sobre a lei discriminatória. Outros grandes artistas, como Bruce Springsteen e Pearl Jam, se recusaram a tocar no Estado enquanto a lei vigorasse.

Ídolos e o Brasil. A líder da Against Me! diz que está ansiosa para conhecer a América do Sul, a cultura, a música e tocar com bandas locais, mesmo com o calendário apertado. Entretanto, ela ainda não tem muita familiaridade com a música brasileira… além do Cazuza: “Minha filha estuda com membros da família dele e eu conheci a música dele, assisti a um filme sobre e ele”. Ela diz que o cantor brasileiro serviu para que ela conhecesse as dificuldades e lutas de LGBTs de outros países.

Os 20 anos de carreira serviram como aprendizado, mas também para conhecer artistas que eram seus ídolos de infância. Em seu livro, ela conta sobre um bilhete que Bruce Springsteen mandou para ela depois que a Against Me! assinou com uma grande gravadora e alguns punks começaram a perseguir a banda e chamar os músicos de vendidos. Era uma mensagem sobre crescer e mudar, mesmo levando golpes por fazer isso. Mas foi a banda Crass a que ela mais se emocionou ao conhecer: “É uma das bandas mais importantes para mim. Eu vivia e respirava a música deles”.

Agora só falta um ídolo: Madonna. A cantora representa o despertar de gênero, mas também alguém que ela respeita muito. “Para mim, é a última de uma grande linha de popstars. Prince morreu, Michael Jackson morreu, mas ela está por aí. Um dia a gente se encontra”.

INFORMAÇÕES SOBRE SHOWS E INGRESSOS DA AGAINST ME! NO BRASIL

A agência Powerline é a produtora da turnê na América do Sul

Curitiba

Data: 19 de Outubro
Horário: 21h00
Local: Jokers
Endereço: R. São Francisco, 164
Censura: 18 Anos
Banda Convidada: Dínamo
Ingressos: A partir de R$70.
Pontos de Venda: Túnel do Rock, Agacê Store, Belvedere Beer Club ou no site pixelticket.com.br

São Paulo

Data: 20/10
Horário: 16h00
Show: Against Me
Abertura: Water Rats e Weedra
Ingressos: 1º lote $110,00 (promocional/meia entrada)* – 100 ingressos
2º lote 130,00 (promocional/meia entrada)* – 1350 ingressos
Camarote 1º lote (promocional/meia entrada)* 50 ingressos
Camarote 2º lote (promocional/meia entrada)* 100 ingressos
Censura: 16 anos
Carioca Club: Rua Cardeal Arcoverde, 2899 – Pinheiros, São Paulo
Online: www.clubedoingresso.com/againstme-sp

Natal

Data: 21/10/2018
Atrações: Against Me! + 5 bandas
Preço: R$ 30,00 (1o lote)
Horário: 16h
Local: Rua Chile, Ribeira
Online: https://www.sympla.com.br/festivaldosol2018