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John Sellers odeia Bob Dylan

Alexandre Ferraz Bazzan

19 Agosto 2015 | 00h40

Quando eu resolvi ser jornalista, imaginava que eu deveria estar constantemente entrevistando as pessoas(isso seria verdade em um mundo ideal, mas agora não vem ao caso). Essa foi minha primeira entrevista, em 2010, algo na linha das ligações que o Cameron Crowe fazia para o Lester Bangs, só que por e-mail e menos sentimental.

John Sellers é jornalista musical freelancer e escrevia na época mensalmente na revista norte-americana Spin, uma espécie de periódico no meio do caminho entre a Rolling Stone e a inglesa New Musical Express.

Além de fazer entrevistas bem-humoradas com alguns nomes da música pop, Sellers tem um livro publicado chamado Perfect from now on, how indie rock saved my life, que fala sobre sua infância, de como seu pai, na tentativa de apresentar Bob Dylan ao filho, fez com que ele criasse ódio pelo artista. As memórias do autor se estendem por longas notas de rodapé, no melhor estilo David Foster Wallace.

O livro também comenta sobre o background de Sellers, descobrindo diversas bandas como Joy Division, Pavement, entre outras, até chegar a sua fixação por Guided By Voices, que domina os capítulos finais. Além de algumas listas e fórmulas matemáticas para qualidade de música.

Desde essa conversa, Sellers lançou seu segundo livro que relata sobre a convivência dele com seu pai. O livro se chama The old man and the swamp em referência ao trabalho do pai que era um pesquisador de cobras e estava constantemente enfiado em pântanos para melhor estudá-las. Isso quando ainda estava na ativa.

Ele também pode ser encontrado no seu site johnsellers.com onde frequentemente responde a pergunta “por que estou bravo hoje?”.

Alexandre Bazzan – Quando você decidiu ser jornalista? Chegou a considerar outro ramo de trabalho?

John Sellers – Um fato conhecido sobre mim, mas que não aparece para quem leu Perfect from now on, é que sou formado em Administração de Empresas na Universidade de Michigan. Eu originalmente pensei em ser contador, mas depois de algumas entrevistas de trabalho em que eu precisei usar terno e gravata, percebi que alguém desleixado como eu nunca daria certo no mundo corporativo. Eu naturalmente flutuei para um campo de trabalho que me pagasse para trabalhar em casa de camiseta e calças de moletom.

AB – Você era bom em matemática no colegial? Quando você fez as fórmulas presentes em Perfect from now on você estava desempregado ou com muito tempo livre? Como bolou tudo? Como chegou aos valores específicos?

JS – Eu definitivamente sempre amei matemática, no entanto, meu talento matemático só é usado atualmente para fazer os balanços da minha conta corrente e calcular estatísticas de ‘fantasy baseball’. As fórmulas presentes no livro são a maneira que encontrei, através de ciência avançada, de determinar exatamente o que sinto sobre todas as bandas existentes no universo. Eu venho tentando chegar a uma fórmula perfeita para isso desde os 13 anos. É uma completa perda de tempo, claro, mas, impressionantemente, a fórmula presente no livro funciona para mim, pois é baseada nas minhas preferências musicais.

AB – Quando li o seu livro, me perdi com frequência nas notas de rodapé, para quê notas tão grandes? Você se perdeu escrevendo elas? Certa vez tentei fazer o mesmo em meu blog e não consegui.

JS – Como nerd nato que sou e amante de David Foster Wallace e Nicholson Baker, nunca tive problemas com notas de rodapé, apesar de reconhecer porque alguns leitores têm problemas com as minhas. Mas, especialmente onde está envolvida música, fanáticos costumam mudar de assunto quando discutindo sobre suas paixões e com frequência essas mudanças de assunto são relevantes. Existe uma correlação real entre, digamos, o que eu acho do INXS e o garoto que me atacou com uma espada ninja e eu precisava dessas notas de rodapé para passar meus pensamentos corretamente. E a partir do momento que você começa a escrever uma nota de rodapé, você precisa tratá-la com o respeito que ela merece. Geralmente isso significa um parágrafo, mas de vez em quando pode significar cinco mil palavras.

AB – A sua lista de cinco coisas que você espera que aconteçam mudou alguma coisa? Podemos esperar um novo Nirvana? O que você acha do disco novo do My Bloody Valentine? Acha que eles vão realmente concluir o trabalho?

JS – Minhas listas mudam o tempo todo. Mas o que nunca vai mudar é o meu desejo de ver os Smiths reunidos. Porque eles nunca vão se reunir. É um saco, mas o que se pode fazer?

AB – Você já foi obrigado a ir a algum show do Bob Dylan por trabalho? A constante mudança das músicas ao vivo em relação à gravação de estúdio faz você odiar mais ele? Se eu fosse seu chefe seu primeiro trabalho seria ir a um show do Dylan

JS – Ainda bem que você não é meu chefe

AB – Você ainda faz uma homenagem a Ian Curtis no dia da morte dele? O que pretende fazer quando Robert Pollard morrer?

JS – Eu definitivamente vou fazer alguma homenagem esse ano – É o aniversário de 30 anos da morte de Ian Curtis. O Robert Pollard nunca vai morrer

AB – Qual a maior perda da música?

JS – A maior perda na história ou recentemente? Acho que você quer dizer perda prematura né? De todos os tempos, eu diria Kurt Cobain, ele estava começando a ficar interessante. Recentemente, eu diria Jay Reatard. Também acho que pode ter existido algum gênio que morreu ainda na adolescência que se tivesse sobrevivido poderia ter sido o novo Mozart

AB – Você não acha que Pollard ainda poderia se apresentar como GBV? Por que ele não faz isso?

JS – Não, acho que ele conquistou o direito de terminar o GBV. Mas eu realmente gostaria que ele se reunisse com a banda para uma última última turnê.

AB – Quando você teve o mal entendido com Bob Pollard, chegou a pensar em não publicar o livro? Chegou a receber ameaças de fãs da banda ou algo do tipo?

JS – Sim para as duas perguntas.

AB – Se Pollard pedisse para você escolher músicas para um “best of”, que músicas você escolheria?

JS – Escolheria a maioria das músicas do best of original da banda, mas também incluiria Navigating Flood Regions My Impression Now Gold Star for Robot Boy.

AB – Qual o melhor trabalho do Pollard fora do GBV?

JS – Apesar de estar fuçando atualmente nas coisas que ele tem feito com o Boston Spaceships, eu diria Not in My Airforce, porque inclui as músicas Flat Beauty e Get Under It, as quais eu poderia tranquilamente argumentar que são as melhores já escritas por ele.

AB – “Pergunta difíceis para…” está mensalmente na revista Spin, você é funcionário contratado ou freelancer?

JS – Sou freelancer. O editor tem sido legal e me deixa fazer as entrevistas todo mês

AB – Quando você entrevista artistas para a Spin, você brinca bastante com eles. Já teve problemas com algum artista? Qual o limiar entre brincar e zombar?

JS – Não é bem brincar, o que eu tento fazer é com que eles se divirtam consigo mesmo ou fazer com que eles façam declarações bombásticas. É muito chato quando artistas conhecidos se levam muito a sério. A maioria das pessoas entende o que eu faço, mas alguns são incapazes de rir de si mesmo.

AB – Você está escrevendo, ou pretende escrever outro livro?

JS – Vou lançar um novo livro em janeiro de 2011. É um livro de memórias sobre meu pai.

AB – Podemos esperar Perfect from now on em breve no cinema? Como as notas de rodapé seriam traduzidas para as telas? (elas seriam essenciais para o filme)

JS – Isto seria assustador. Se bem que eu gostaria de ver um filme sobre a vida de Robert Pollard. Talvez John C. Rilley possa interpretar o papel?

AB – Por que você está bravo hoje?(essa entrevista não vale)

JS- Bret Michaels teve hemorragia cerebral

*Robert Pollard não só retornou para uma última última turnê, mas também gravou um novo disco com o Guided by Voices.

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