Guitarra de Bob Dylan volta ao festival de Newport
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Guitarra de Bob Dylan volta ao festival de Newport

Há 50 anos o show elétrico do cantor incomodou muitos puristas do folk americano

Alexandre Ferraz Bazzan

27 Julho 2015 | 17h06

A grande atração do Festival Newport de 2015 foi uma guitarra. A Mecca da música folk celebrou no último fim de semana os 50 anos do primeiro show de Bob Dylan com guitarra elétrica. Simplesmente por ter sido empunhado pelo cantor em 1965, o instrumento já seria suficientemente icônico, mas ele também foi esquecido no fundo de um avião e ficou sem ser tocado por alguém em público durante os mesmos 50 anos.

Foto:Reprodução

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A Fender Stratocaster 1964 foi encontrada em 2012 e arrematada no ano seguinte por US$ 965 mil em leilão pelo dono do time de futebol americano, o Indianápolis Colts, Jim Irsay. Na época, a guitarra mais cara da história. Esse ano o milionário cedeu o instrumento por alguns dias para o festival.

Jason Isbell, ex-Drive-By Truckers e agora em bem sucedida carreira solo, foi o escolhido para tocar a guitarra depois de tanto tempo e colocou uma foto com o “brinquedinho” em sua conta de Instagram e com uma mensagem bem emotiva.

Foto: Reprodução Instagram

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“Esta manhã, boas pessoas, o Festival Folk Newport me entregou a guitarra que Dylan usou para virar elétrico. Ninguém tocou ela desde esse dia, até hoje. Meu ser inteiro ficou elétrico.”

Homenagens à parte, na época, Dylan foi recebido com pouco carinho ao subir ao palco com uma jaqueta de couro e instrumentos plugados. Um dos símbolos do movimento folk e da luta pelos direitos civis, o cantor nunca esteve disposto a ser porta-voz de uma geração ou símbolo de algo. O dia 25 de julho de 1965 foi a ruptura definitiva.

Após a primeira música de seu curto set, Maggie’s Farm, é possível ouvir as vaias que acompanhariam Dylan por um bom tempo.

A apresentação elétrica foi tão controversa que criou várias lendas a seu redor. Uma delas era a de que Pete Seeger tentou cortar os fios com um machado. No vídeo abaixo ele explica que de fato ficou furioso porque o som estava ruim e ele não conseguia entender a mensagem de Maggie’s Farm.  Seeger diz que não tem nada contra a apresentação elétrica, mas que pediu que os engenheiros de som arrumassem a qualidade que estava distorcida e, como isso não foi possível, disse que cortaria os cabos se tivesse um machado.

Apenas quatro dias depois, ele gravaria Positively 4th Street, um tapa na cara das pessoas que pressionavam para que ele continuasse tocando músicas folk e acústicas.

A mudança de comportamento não aconteceu somente nos palcos. Fora deles, Dylan passou a ser mais arredio com a imprensa e protagonizou algumas das coletivas mais geniais da história do jornalismo ou da música, ridicularizando perguntas e afirmações que tentavam criar algum rótulo para ele.

O comportamento de Dylan desagradou tanto os ardorosos fãs que em um show em Manchester, na Inglaterra, ele foi chamado de Judas. Durante a turnê britânica ele também chegou a receber uma ameaça de morte antes de se apresentar. É possível ver tudo isso no filme No Direction Home de Martin Scorsese.

“Eu não acredito em você… você é um mentiroso”. Essa foi a resposta dada à plateia seguido de um comando bem claro para a banda: “Toquem bem alto.”

“You’re a liar.” Dylan mandou a banda tocar bem alto pra abafar os babacas que vaiavam ele em 1966.

Muitas análises foram feitas sobre Dylan, sua trajetória e a necessidade de se reinventar, mas nada supera a resposta que ele dá em No Direction Home: Eu estava tentando chegar em casa. Eu nasci muito longe de onde eu deveria estar e de alguma forma estava tentando chegar em casa, seja lá onde isso for. De alguma forma, todos estamos.

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