Eu sou o cosmos
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A história de Chris Bell e do Big Star; a formação de identidade e noites mais curtas do que deveriam ser

Alexandre Ferraz Bazzan

21 Julho 2015 | 05h43

Pode ser que eu esteja escrevendo apenas para o computadorzinho do Google que vai registrar as palavras e deixar em um banco de dados cheio de zeros e uns e toda vez que alguém digitar Chris Bell esse texto vai aparecer, nem que seja na última página da procura. Mesmo com toda essa perspectiva negativa, eu vou me arriscar. Aperte o play.

Antes mesmo de nascer, você é automaticamente filho de alguém. De duas pessoas, se você tiver sorte. Isso é algo difícil de superar porque com o tempo você passa a ser “propriedade” de outras pessoas queridas. Amigos, namorados, irmãos – se você tiver a sorte de não ser filho único. Nada contra os filhos únicos, tenho até amigos que são. Acontece que a formação de identidade é a coisa mais impossível de se fazer nesse mundo que insiste em apagar qualquer resquício de registro. É só pensar no que nós fazemos com os nossos índios desde 1500.

Chris Bell foi um moleque de Memphis, a cidade conhecida pela música negra e a casa do Elvis. Esse menino ouvia mais Beatles e Beach Boys do que devia, como muitos de nós, mas com uma sensibilidade aguçada. Ele montou uma banda de power pop em um momento em que todos queriam ouvir rock pesado. Foi além, aceitou que os discos dele fossem distribuídos pela Stax, uma gravadora em crise e especializada em soul. A receita para o desastre estava feita, mas, antes disso tudo, ele caiu na besteira de chamar um ídolo adolescente para compor a banda que escreveria algumas das músicas mais bonitas da história. Quando eu digo ídolo adolescente vocês têm que relevar um pouco, as estrelas adolescentes da época eram os Beatles e as Ronettes.

Alex Chilton tinha feito um sucesso enorme com o Box Tops, saído em turnê com os Beach Boys e conhecido Jim Morrison. O sonho de qualquer moleque de 17 anos. Mas ele queria fazer sua própria história (no Box Tops ele apenas cantava composições de outros). O rapaz logo aceitou fazer parte do Big Star. Esses jovens senhores gostavam tanto dos Beatles que eles creditavam todas as músicas Bell/Chilton, assim como a banda de Liverpool creditava Lennon/McCartney.

A força criativa de Chilton e a falta de sucesso fizeram com que Bell ficasse desiludido já no primeiro disco, chamado pretensiosamente de #1 Record. Na segunda gravação, Radio City, ele colaboraria apenas em algumas composições, mas já como ex-membro. O Big Star ainda gravaria um último álbum que seria lançado depois que a banda já havia implodido. Alguns o chamavam de Third (terceiro) e  outros de Sister Lovers. A confusão fez com que o vinil viesse com os dois nomes: Third/Sister Lovers.

Enquanto o Big Star lutava contra o desaparecimento, Chris Bell tentava achar um rumo na vida. Se tornou uma pessoa religiosa, viajou pela Europa e compôs seu hino definitivo: I am the cosmos. Não demorou muito para que essa alma errática morresse em um acidente de carro e entrasse para o infame clube dos 27 (músicos que morreram aos 27 anos), mas a obra estava garantida.

Capa do disco póstumo 'I am the Cosmos'. A foto foi tirada pelo irmão do cantor, David, enquanto eles viajavam pela Europa

Capa do disco póstumo ‘I am the Cosmos’. A foto foi tirada pelo irmão do cantor, David, enquanto eles viajavam pela Europa

I am the Cosmos fala sobre um amor que não deu certo, mas duas coisas chamam atenção: 1-“Every night I tell myself I am the Cosmos, I am the wind… But that don’t get you back again”. Ou seja, por mais que eu diga a mim mesmo que eu sou uma força da natureza, isso não serve de nada quando a pessoa amada decidiu te dar um belo de um pé na bunda. Todos passamos por isso. 2-E essa é a coisa mais importante da história da minha vida e é uma coisa extremamente adolescente, então é meio vergonhoso que isso ainda faça sentido, mas… “I hate to have to take you home.” Essa frase carrega uma simbologia incrível do amor novo.

‘Tudo em ti foi naufrágio’

Por cinco anos, eu tive um amor platônico que terminou depois que eu visitei a casa de Pablo Neruda em Santiago e li Vinte Poemas de Amor e uma Canção Desesperada. Este livro é o maior êxito do escritor chileno e me fez ver qual era o meu problema. Eu percebi que o problema não era comigo, mas com a noite que não durava o suficiente.

“É a hora de partir, a dura e fria hora
que a noite sujeita a todos seus horários”

Isso era o que dizia o livro que eu comprei e presenteei meu amor que deixou de ser platônico e deixou de ser amor algum tempo depois de se concretizar. A parte do “I hate to have to take you home” de I am the Cosmos bebe da mesma fonte. Para aqueles que são tímidos, a noite nem sempre tem a duração que deveria. Os compromissos de trabalho e ou estudos nos obrigam a despedir das pessoas antes do que gostaríamos ou deveríamos, algo semelhante com o que acontece com a vida, mas é o que temos. O mesmo pode ser dito da obra de Chris Bell; é nela que eu me deito de tempos em tempos quando algo acaba antes da hora.

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