É possível separar o autor de sua obra?
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É possível separar o autor de sua obra?

As ofensas de Sun Kill Moon e desentendimentos de outros nomes da música

Alexandre Ferraz Bazzan

04 de agosto de 2015 | 14h39

Sun Kill Moon sobe ao palco e começa a despejar algumas das canções mais sinceras e emotivas que um artista pode fazer. A voz poderosa paira por cima do delicado som da banda de apoio. Nada do doce murmúrio de gigantes que o precedem como Elliott Smith ou Paul Simon.

Mark Kozelek/Foto:Divulgação

Mark Kozelek/Foto:Divulgação

Com um teatro para quase 2 mil pessoas lotado, mesmo com um show de Bryan Ferry no Royal Albert Hall a poucos quilômetros dali,  a única coisa que Mark Kozelek, o cérebro e voz por trás do Sun Kill Moon, consegue enxergar são os quatro lugares vagos nas primeiras fileiras.

A performance parecia um stand-up comedy, sempre conversando e fazendo piadas. Até que ele começa a falar mal de críticos musicais e da imprensa. Algo trivial, não fosse a citação de uma jornalista nominalmente: “Tem uma garota chamada Laura Snapes, ela é jornalista e está contatando pessoas que eu conheço para escrever sobre mim. Laura Snapes quer transar comigo. Entra na fila vadia…” Kozelek tem sido louvado pela honestidade que imprime em suas canções. Ele escreveu em 2013 sobre o medo de perder os pais e a meia-idade e é como se tudo isso tivesse derrubado todos os filtros do cantor que chegou a escrever uma música chamada “War on drugs can suck my cock” (não era uma crítica à guerra contra as drogas, mas um ataque gratuito à banda War on drugs).

Laura Snapes escreveu um artigo elegante dias depois. A jornalista poderia escrachar o novo disco do Sun Kill Moon, mas foi totalmente profissional e elogiou o trabalho, apenas destacando a ofensa recebida.

Mas afinal, é possível separar obra e autor como Laura Snapes fez em sua matéria? Temos alguns casos conhecidos de grandes artistas da música, literatura e do cinema que tinham personalidades difíceis, para dizer o mínimo.

John Lydon, antigo Johnny Rotten dos Sex Pistols, já desferiu a seguinte frase racista: “O problema é sua atitude de negro” contra o vocalista do Bloc Party em um desentendimento nos bastidores de um festival. Lydon é das pessoas que mais desafiou a sociedade conservadora inglesa em seu tempo e o Bloc Party é quase tão insignificante quanto o comentário racista de Lydon.

Outro John, o Lennon, era conhecido por bater em sua primeira esposa, Cynthia. A lista continua: o cineasta Luis Buñuel seria homofóbico, Ernest Hemingway misógino e Louis-Ferdinand Céline anti-semita.

Aqui no Brasil tivemos um recente ataque à liberdade de expressão e imprensa com toda a polêmica sobre biografias encabeçada por Roberto Carlos e apoiada por outros grandes da MPB como Caetano Veloso. Caetano, aliás, é um que sempre está envolvido em alguma polêmica pelo simples fato de que ele se sente obrigado a comentar sobre qualquer assunto no mundo. A troca de cartas com Roger Waters antes de tocar em Israel foi mais um capítulo que despontou parte dos fãs que são contra a política de Netanyahu.

Caetano, pelo menos, tem em sua defesa o fato de sempre procurar por o coração no lugar certo e tentar andar no caminho da liberdade. O problema é que de vez em quando ele não entende nada.

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