Discos para ouvir na quarentena 3: ‘Gilberto Gil’ (ou ‘Cérebro Eletrônico’) – Gilberto Gil
As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Discos para ouvir na quarentena 3: ‘Gilberto Gil’ (ou ‘Cérebro Eletrônico’) – Gilberto Gil

Alexandre Ferraz Bazzan

18 de março de 2020 | 23h05

Eu estava em Osaka em um bar punk completamente vazio. Pedi uma cerveja e o barman, um homem de uns 40 e poucos anos de idade com um mullet grandão, perguntou em inglês de onde eu era. Quando falei que era do Brasil, ele abriu um sorriso enorme: “Eu adoro o Gilberto Gil e o Caetano Veloso. Eles ainda estão vivos?” Isso foi bem na época em que ele excursionava com Caetano Veloso pelo mundo com a turnê Dois Amigos, Um Século de Música.

Ele me deu a cerveja, virou as costas e colocou o terceiro disco do Gil para tocar. É um álbum homônimo, que é chamado informalmente de Cérebro Eletrônico.

O próprio Gil explica no site dele como as composições foram iniciadas:

“Eu estava preso havia umas três semanas, quando o sargento Juarez me perguntou se eu não queria um violão. Eu disse: ‘Quero’. E ele me trouxe um, com a permissão do comandante do quartel. O violão ficou comigo uns quinze dias. Aí, eu, que até então não tinha tido estímulo para compor (faltava a ‘voz’ da música, o instrumento), fiz Cérebro Eletrônico, Vitrines e Futurível – além de uma outra, também sob esse enfoque, ou delírio, científico-esotérico, que possivelmente ficou apenas no esboço e eu esqueci.

O fato de eu ter sido violentado na base de minha condição existencial – meu corpo – e me ver privado da liberdade da ação e do movimento, do domínio pleno de espaço-tempo, de vontade e de arbítrio, talvez tenha me levado a sonhar com substitutivos e a, inconscientemente, pensar nas extensões mentais e físicas do homem, as suas criações mecânicas; nos comandos tele-acionáveis que aumentam sua mobilidade e capacidade de agir e criar. Porque essas são ideias que perpassam as três canções”.

 

Gil antes (1968) e depois (1972) do exílio – Acervo Estadão

As três músicas que ele escreveu na prisão já deveriam ser motivo suficiente para o álbum ser considerado um clássico, só que, por acaso, no disco também está Aquele Abraço, talvez o maior hit de um dos maiores brasileiros vivos da música.

A canção é uma espécie de despedida do Rio (e do Brasil) antes do exílio em Londres. Ele e Caetano eram muito perseguidos depois do AI-5 e foram presos algumas vezes entre 1968 e 1969. Foi então que os militares “recomendaram” que eles deixassem o País. Os baianos fizeram um último show para arrecadar dinheiro que possibilitasse a viagem e se mandaram para a Inglaterra.

Gil ficou amigo de vários músicos e ajudou a criar o festival Glastonbury, o mais importante da Inglaterra e que existe até hoje, mas isso é outra história.

Tendências: