Discos para ouvir na quarentena 2: ‘Marquee Moon’ – Television
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Discos para ouvir na quarentena 2: ‘Marquee Moon’ – Television

Alexandre Ferraz Bazzan

17 de março de 2020 | 20h06

Terry Ork chegou um dia em casa e falou para o seu inquilino: “Preciso te apresentar um cara, ele faz a mesma coisa que você”.

Ricahard Lloyd, que não fazia nada da vida, estranhou: “Mas o que eu faço?”.

“Você fica o dia inteiro em casa tocando guitarra”, respondeu Ork.

Ork era assessor de Andy Warhol e, assim como seu chefe fez com o Velvet Underground nos anos 1960, procurava uma banda para agenciar. O cara que ele queria apresentar para Lloyd era Tom Verlaine, o melhor amigo de Richard Hell, que trabalhava com Ork em uma loja de bugigangas de cinema.

Verlaine, Lloyd e Hell montaram o Television junto com o baterista Billy Finca. A chatice de Verlaine não demorou muito para empurrar Hell para fora da banda e ele foi substituído por Fred Smith, que tocava com o Blondie.

Que confusão – segue.

O Television merecia uma estátua somente pelo fato de descobrir o CBGB e convencer o proprietário, Hilly Kristal, a deixar eles e outras bandas como Ramones, Talking Heads e Blondie tocarem naquele bar fuleiro cheio de serragem no chão. Mas na curta duração da banda (ela terminou em 1978 e voltou apenas em 1992), eles lançaram dois discos. Mais importante, eles lançaram Marquee Moon.

Enquanto todo mundo aumentava o volume e a velocidade, o Television apostou numa mistura de jazz e rock clássico. Não se pode dizer que Marquee Moon é um disco de pós-punk porque ele foi lançado em 1977, uma época ainda incipiente até do próprio punk, mas a banda antecipa muito do que seria feito anos depois com a new wave.

Meio sem querer, porque Verlaine não conseguia cantar e solar ao mesmo tempo, ele e Richard Lloyd criaram uma batalha de guitarras que se tornou o principal trunfo e marca registrada do Television e influenciou muita gente, como os Strokes. Eles dividiam os solos meio a meio, sendo que Lloyd liderava quando Verlaine cantava.

Outra diferença em relação aos contemporâneos é o tamanho das músicas. Enquanto os Ramones tentavam não passar de 2 minutos, a faixa título de Marquee Moon, por exemplo, tem mais de 10 (e vale cada segundo).

See No Evil, Venus, Friction, Marquee Moon e Elevation funcionam de forma excelente como canções separadas, mas nada substitui o conjunto da obra. Eu tenho na minha cabeça um roteiro para um filme mudo apenas com som ambiente e legendas em que o espectador vai apertar o play no começo e a história só vai acabar ao fim de Torn Curtain. Digo que o espectador vai apertar o play porque não tenho dinheiro para bancar essa trilha sonora, então cada um que lute para assistir com a trilha adequada. Eu ainda vou lançar ele um dia, me falta tempo. Até lá você pode escutar o disco sozinho.

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