Discos para ouvir na quarentena 12: ‘Soap Opera’- The Kinks
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Discos para ouvir na quarentena 12: ‘Soap Opera’- The Kinks

Alexandre Ferraz Bazzan

06 de abril de 2020 | 16h53

Ray Davies seria considerado o maior artista do mundo em qualquer era, mas ele formou os Kinks com o irmão Dave na mesma época em que John e Paul se juntaram, Brian conheceu Mick e Keith e Pete convocou três músicos super talentosos e carismáticos que seguiram ele em todas as loucuras que ele inventou. Competição difícil.

Em números de discos lançados os Kinks só perdem para os Stones, mas é difícil dizer que a qualidade das composições fique devendo para qualquer uma das outras três bandas da invasão britânica. Lola, Sunny Afternoon, Waterloo Sunset, This Time Tomorrow, A Well Respected Man… a lista de hits é enorme e Wes Anderson faz questão de vez ou outra incluir algum nos seus filmes. Obrigado, Wes.

Uma vez eu quase saí na mão com um completo desconhecido em um bar porque ouvi ele dizer que You Really Got Me era do Van Halen. Saudades de quando eu podia arrumar confusão nos bares da cidade – #FiqueEmCasa e tal.

Soap Opera é um disco conceitual do meio dos anos 1970, o 14º deles. Para se ter uma ideia, o U2 tem no total 14 discos, o Jay-Z tem 13, o Radiohead tem 9 e o Pearl Jam tem 11. Imagine o Eddie Vedder, daqui a 3 discos, compondo uma historinha teatral com música. Não vai acontecer. E Ray Davies seguiu com a banda até o começo dos anos 1990.

O conceito do álbum é simples: uma super estrela diz que qualquer um pode ser uma celebridade e para provar seu ponto ele troca de lugar com um cidadão comum. Enfrenta o trânsito pesado de quem trabalha das 9h às 18h, encontra a cara dos derrotados no pub ao fim do dia e volta para o seu casamento convencional em casa. Situando a ideia para a realidade brasileira, seria o mesmo que trocar de lugar um bilionário e um assalariado e esperar o bilionário fazer o seu primeiro bilhão sem nenhum empréstimo ou ajuda externa. Não vai acontecer.

O disco começa bem festivo, com a arrogância do Starmaker, o personagem super estrela, e vai ficando melancólico conforme ele se choca com a realidade. (A) Face In The Crowd é a certeza de que ele é apenas mais um no exército de pessoas que levanta para trabalhar todos os dias. Mais do que isso. É a resignação de seu papel insignificante e o fim da tentativa de ser algo que ele não é.

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