Os luthiers do Congo
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Os luthiers do Congo

Com equipamentos rudimentares e material precário, Jean-Luther Misoko Nzalayala (Ir Socklo) e Maurice Mazanza (Almaz) constroem na capital Kinshasa guitarras com um som especial

Alexandre Ferraz Bazzan

20 de novembro de 2017 | 15h34

Jean-Luther Misoko Nzalayala, do ateliê Ir Socklo, e Maurice Mazanza, do ateliê Almaz, são luthiers concorrentes, mas com muita coisa em comum. Os dois vivem em Kinshasa, a capital e maior cidade da República Democrática do Congo. Com equipamentos rudimentares e aproveitando materiais como compensado para o corpo, sucata para fazer os trastes do braço e fio de cobre e de outros materiais para produzir as cordas, eles constroem os únicos instrumentos de corda que os congoleses podem pagar. As guitarras, violões e baixos produzidos por eles chegam a custar 10 vezes menos do que os instrumentos mais baratos que o país pode importar.

Artistas e institutos europeus, como o belga Music Fund, ajudaram os produtores com pequenos financiamentos, encomenda de instrumentos e até ferramentas mais modernas, o grande problema é que a capital do Congo sofre constantes quedas de energia, o que impede com frequência o uso de equipamentos elétricos. Nzalayala diz que adianta o trabalho como pode quando tem energia e se dedica com os antigos equipamentos quando precisa.

Ir Socklo

Jean-Luther Misoko Nzalayala, da Ir Socklo – Foto: AFP

Nzalayala começou a produzir suas primeiras guitarras por pura curiosidade. Ele queria ser jogador de futebol quando era criança, mas o reumatismo o impediu de seguir carreira. Foi então que ele passou a se dedicar à música e se questionou se poderia construir seu próprio instrumento. O luthier estudou eletrônica por um tempo em um instituto de Kinshasa e começou a Ir Socklo, sua marca, em 1978.

Na parede de sua oficina, as fotos dos três últimos governantes do Congo dividem espaço com um pôster do Michael Jackson. Nzalayala produz três guitarras por semana e os instrumentos, além de proporcionarem aprendizado a jovens músicos congoleses, se tornaram cultuados na Europa pelo seu som característico.

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Abaixo, o jazzista belga Philip Catherine-Nuit toca sua Ir Socklo

A banda congolesa Staff Benda Bilili também utiliza violões e guitarras Ir Socklo. A maioria dos integrantes tem paraplegia por causa do pólio.

A música abaixo alerta os cidadãos congoleses para a vacinação contra o pólio e faz um apelo contra a discriminação de pessoas com deficiência.

A oficina Ir Socklo

Almaz

Maurica Mazanza, da Almaz – Foto: Lukas Pairon

Maurice Mazanza é o fabricante de guitarras mais antigo do Congo. Ele fez seu primeiro instrumento em 1965, um violão de quatro cordas que ele mesmo desenhou contra a vontade dos pais, que preferiam que ele se dedicasse exclusivamente aos estudos.

Usando a malícia congolesa, como ele mesmo diz, ele viu um anúncio de uma loja parisiense em uma revista de música francesa, então, ele escreveu se passando por um potencial comprador pedindo a maior quantidade possível de informações sobre as guitarras. Foi assim que ele aperfeiçoou sua fabricação inicialmente.

As guitarras Almaz, assim como as Socklo, têm ajudado na formatação da música do Congo e fez parte da carreira de artistas que ultrapassaram as barreiras de Kinshasa para ir tocar em palcos europeus, como Rigo Star e a banda TP OK Jazz. Mazanza diz que a história dele mostra que o congolês pode fazer o que quiser.

A oficina da Almaz.

COM INFORMAÇÕES DA AFP

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