Desistentes da música
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Desistentes da música

A história de Kathleen Edwards e outros artistas que abandonaram a carreira, mesmo que temporariamente

Alexandre Ferraz Bazzan

01 de fevereiro de 2015 | 01h08

Dia 11 de fevereiro de 2014, Kathleen Edwards postou em sua conta de Facebook algo que parecia ser uma carta de aposentadoria. A cantora tinha lançado em 2012 seu disco mais elogiado, inspirado no fim de seu casamento, Voyageur. O registro, produzido pelo então namorado, Justin Vernon- a voz por trás do Bon Iver-, era um avanço em uma carreira que já começava a ser respeitada.

“Sinto muito, mas acho que não quero mais fazer música”, dizia a publicação na rede social. Os shows foram rareando durante o ano, e em outubro ela confirmou algo que já havia especulado: “Os rumores são verdade, estamos abertos. Seja gentil, nós ainda somos novos nisso”, desta vez na conta de um novo café, aberto em Stittsville, no Canadá.

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Foto: Reprodução – Kathleen Edwards prova do próprio café

Pelas fotos, o estabelecimento parece ter o mesmo clima aconchegante de suas músicas. Acrescente três cachorros e uma cantora folk à elegância da casa e você não vai querer sair de lá. Pelo menos se você estiver no Canadá, como a Luísa (piada ruim e velha, desculpe). Ela explicou em uma entrevista ao jornal Toronto Star que não existia sensação melhor do que tocar suas canções, mas que precisava de afastamento e descanso. De trocar as noites viradas para aproveitar o dia e ter uma vida normal.

Hoje ela acorda antes das 6h da manhã e leva os cachorros para passear antes de abrir o Quitters (Desistentes). O nome é uma brincadeira com a decisão de largar a música. De ‘fracassada’, o primeiro disco dela se chama Failer, a desistidora, Kathleen é um sucesso.

Edwards tem a peculiaridade de abandonar uma carreira em ascensão, mas ela não foi a única a fazer isso. Veja outras histórias de artistas que deixaram a música para trás:

Bill Berry (R.E.M)

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Foto: Reprodução – Bill Berry do R.E.M

De banda indie nos anos 80, o R.E.M se tornou um dos maiores nomes na década de 90. Eles assinaram um acordo vantajoso com a Warner Bros com muita grana envolvida e liberdade criativa. Eram admirados por pessoas do calibre de Kurt Cobain e Patti Smith, uma vez que tinham o sucesso dele e a respeitabilidade dela, sem ter que enfrentar hordas de fãs lunáticos como o Nirvana. Bill Berry, o baterista da banda, teve um colapso em um show, um aneurisma. Depois disso ele nunca mais se divertiu tocando. Abandonou a banda e virou fazendeiro.

Matt Lukin (Melvins e Mudhoney)

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Foto: Mudhoney/Reprodução – Matt Lukin

Ele já havia sido substituído no Melvins, e estava cansado de viajar para cumprir a agenda de um Mudhoney já em declínio. Largou tudo e voltou a ser carpinteiro, profissão que tinha antes de se tornar roqueiro. O cara é tão legal que virou música do Pearl Jam. Não é raro Eddie Vedder anunciar nos concertos do grupo de Seattle: “Essa se chama Lukin e vai para o Matt Lukin.”

Cartola

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Foto: Reprodução – Cartola

O monstro do samba estava doente e em baixa quando deixou o morro da Mangueira depois da morte de sua mulher, Deolinda. Ele lavava carros quando foi encontrado pelo jornalista Sérgio Porto, o Stanislaw Ponte Preta. Seu auge havia passado, mas ele ainda  tinha lenha para queimar, e conseguiu abrir um ponto de encontro do samba carioca, o Zicartola, com a esposa, Dona Zica.

Leonard Cohen

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Foto: Reprodução – Leonard Cohen

Depois da longa e consagrada carreira como escritor e cantor, Cohen se exilou em um monastério budista próximo a Los Angeles em 1994. Ele se isolou por 5 anos e ganhou o nome de Jikan, que significa “O Silencioso”. Cohen só voltou a fazer barulho depois de descobrir que sua ex-amante e empresária, Kelley Lynch, embolsou todas as suas economias, mais de 5 milhões de dólares. Obrigado a voltar aos palcos, ele deixou a aposentadoria de lado e se apresenta até hoje, aos 80 anos, em todo o mundo.

LCD Soundsystem

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Foto: Reprodução – James Murphy

Com três discos de sucesso e lotando casas de shows por onde passava, James Murphy sentiu que era hora de encerrar sua banda. Fez uma turnê de despedida com algumas apresentações no Madison Square Garden, templo de reafirmação de um artista americano. Se você lotar o Garden, é porque você é grande. A aposentadoria festiva virou o documentário bacana, Shut up and play the hits. Hoje ele se dedica ao trabalho de produtor, e um de seus últimos trabalhos foi no quarto disco do Arcade Fire, Reflektor.

Patti Smith

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Foto: Reprodução – Patti Smith

O punk é um dos movimentos musicais mais contraditórios que já existiu, e isso é muito legal. A poetisa maior do estilo ajudou a mudar o comportamento de uma geração, aí resolveu ser mãe. Dissolveu o Patti Smith Group no final de 1979 e só voltou a dar as caras em 1988 com o disco Dream of Life. Este, porém, não foi o fim de seu recesso. Ela só voltou aos palcos e a gravar em 1996, incentivada pelos amigos Michael Stipe e Allen Ginsberg, após a morte do irmão Todd e do marido, Fred ‘Sonic’ Smith. Em 2015 ela fará turnê em comemoração aos 40 anos do disco Horses.

Rodriguez

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Foto: Reprodução – Sixto Rodriguez

Comparado a Bob Dylan nos anos 70, ele teve grande reconhecimento na África do Sul antes de entrar no mais completo ostracismo. Rodriguez tentou disputar cargo público em Detroit e trabalhou na construção civil antes de ser redescoberto no documentário Searching for Sugar Man (2012). No próprio filme, alguns entrevistados falavam da morte do cantor, existia a lenda que ele havia se matado no palco durante uma apresentação, até que alguém diz: “Como assim morto? Ele está vivo, mora em Detroit.” O diretor  Malik Bendjelloul encontrou o trovador, e desde então ele voltou a ter uma carreira na música.

Death

Foto: Reprodução - A band called Death

Foto: Reprodução – A band called Death

Três irmãos malucos montaram uma banda chamada Death (Morte). O som pesado de garage rock, uma espécie de Stooges com  música negra, era apreciado por alguns, mas ninguém queria lançar a uma banda que evocava a morte em seu nome. O mais louco dos três, David Hackney, se recusava a mudar o nome e, depois de dar muito soco em ponta de faca, eles decidiram parar. Bobby e Dannis Hackney ainda tiveram uma banda de reggae antes de deixar a música.

Pouco antes de morrer, David pegou todas as gravações que tinha guardado e entregou ao irmão Bobby. “Cuide bem destas fitas porque um dia o mundo vai procurar por elas”, disse ele. O mundo procurou.

 

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