Chris Cornell: a voz mais prolífica de Seattle se cala
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Chris Cornell: a voz mais prolífica de Seattle se cala

Cantor ajudou a pavimentar o caminho percorrido pelo grunge e depois se tornou figura importante do movimento, mas foi além

Alexandre Ferraz Bazzan

21 Maio 2017 | 23h03

Chris Cornell – Foto: Nam Y. Huh/AP

O vocalista de Soundgarden, Temple of the Dog, Audioslave e com carreira solo consolidada tinha atualmente casas em Nova York, Roma e Flórida, mas foi em Seattle que ele ajudou a construir um dos movimentos mais importantes do rock. Se Mark Arm, do Mudhoney, inventou o termo ‘grunge’, Chris Cornell foi quem fez com mais habilidade a combinação entre peso e melodia que foi a única coisa que unia bandas com sons tão diferentes, além é claro da localização geográfica.

Cornell começou como baterista do Soundgarden, mas deixou as baquetas de lado para priorizar a composição das músicas. A banda já tinha um nome de respeito na cena local, com gravações lançadas pela Subpop e posteriormente SST, antes de existir o Nirvana e assinou com uma major quando Eddie Vedder ainda pegava ondas em San Diego, na Califórnia.

Quando o cantor precisou de alguém para dividir apartamento, ele chamou o amigo Stone Gossard, da Mother Love Bone e depois Pearl Jam, mas Gossard indicou o vocalista de sua banda, Andy Wood. Os dois tinham equipamentos de gravação montados em seus quartos e a camaradagem era seguida bem de perto pela competitividade. Toda vez que um trazia uma música nova para mostrar ao colega, o outro se fechava no quarto e tentava fazer algo melhor. No vídeo abaixo ele fala um pouco da relação com Andy:

Quando Andy morreu de overdose, Cornell escreveu uma série de músicas em homenagem ao amigo e mostrou para Stone Gossard. As composições viraram o projeto Temple of the Dog que, além de lembrar Wood, serviu para receber Eddie Vedder em Seattle.

Na mesma época, Cameron Crowe dirigia o seu segundo filme, Singles – Vida de Solteiro, que contava a vida amorosa de jovens de Seattle. A trilha sonora era recheada de músicas das bandas locais e tinha os integrantes como coadjuvantes. Cornell faz uma ponta e os integrantes do Pearl Jam são colegas do personagem Cliff Poncier, interpretado por Matt Dillon. Em uma cena deletada, Cliff inicia a carreira solo e dá uma fita para um amigo na rua.

Jeff Ament, do Pearl Jam, fez a arte da fitinha e inventou nomes de músicas fictícias. Cameron Crowe diz, em uma entrevista para a revista Rolling Stone, que um dia Nancy Wilson, da banda Heart e que era sua esposa na época, saiu de casa e voltou com uma fitinha que comprou de um cara na rua e disse: “Você deveria ouvir isso”. O cassete tinha canções feitas por Cornell para os nomes inventados por Ament. Entre elas estavam Seasons, que faz parte da trilha sonora, Spoonman, que mais tarde viraria um dos hits do Soundgarden, Fluttergirl, que entrou no disco solo pós-Soundgarden, Euphoria Morning, Nowhere but you, usada como lado B do single de Can’t Change Me, também do disco Euphoria Morning e Missing, que agora aparece na reedição da trilha sonora de Singles.

O disquinho poderia tocar nas rádios e catapultar a figura do cantor como grande compositor de uma geração, mas ele engavetou o projeto para focar no Soundgarden e com isso ele conseguiu escrever seu maior sucesso, Black Hole Sun, do álbum Superunknown, quando o grunge já dava sinais de exaustão.

Tudo isso já seria capaz de elevar qualquer artista ao olimpo do rock, mas ele foi além. Com o fim do Rage Against the Machine, os integrantes procuravam um novo vocalista e depois de vários malabarismos, porque a banda e Cornell eram de gravadoras diferentes, eles finalmente formaram o Audioslave. Seria o equivalente a Robert Plant virar vocalista do Lynyrd Skynyrd após a morte de Ronnie Van Zant e o fim do Led Zeppelin. A banda lançou três discos de hard rock e baladas, um talento que o Rage nunca tinha explorado.

Após o Audioslave, Cornell investiu na carreira solo, focando nos violões e na revisão de seus próprios clássicos, além de covers que pareciam servir apenas para provar sua qualidade, como Thank You do Led Zeppelin e Billie Jean do Michael Jackson. Ele também fez a trilha sonora para o filme 007 – Casino Royale e tentou um disco mais pop com o produtor Timbaland, Scream. Paralelamente a isso, ele resgatou todos os outros projetos, quase simultaneamente. Voltou com o Soundgarden e fez um novo disco, King Animal, saiu em uma pequena turnê com o Temple of the Dog e até o Audioslave ganhou uma rara apresentação em protesto contra a vitória de Trump nos EUA. Foi neste ambiente de conciliação que Cornell resolveu tirar a própria vida, após um show do Soundgarden em Detroit.

A esposa do cantor culpa remédios usados contra a ansiedade pelo suicídio, mas o sentimento de perda e frustração é o mesmo. Existem aqueles dias de merda em que a gente quer entrar debaixo da coberta e nunca mais deixar o quarto, mas a gente ouve uma música, lê um livro ou assiste um filme e acaba saindo de volta para o mundo. É triste quando um artista que você gosta morre, mas quando ele se mata é ainda mais pesado porque é como se aquela pessoa que te ajuda a sair todos os dias do quarto desistisse. Seguimos.

Veja abaixo o último show do Soundgarden:

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