Chega de saudade
As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Chega de saudade

Alexandre Ferraz Bazzan

08 Dezembro 2014 | 13h07

Odeio Caetano Veloso. Isso não é dizer que não gosto de música brasileira, ou que não reconheça a importância do leãozinho para nossa cultura. Adoro Ney Matogrosso, Mutantes, Elis Regina, Chico Buarque, a maioria das coisas já produzidas de rock por aqui e recentemente desenvolvi uma paixão pela Karina Buhr.

Até Jorge Ben. Mentira, também odeio Jorge Ben e o samba rock, mas uma vez, aos 13 anos, fui em um show dele proibido para menores e foi das apresentações mais animadas que já vi. Um cantor de bar amigo do meu pai me colocou para dentro de uma festa que ocorria no Pinguim itinerante da Feapam, feira agropecuária de Ribeirão Preto. Encontrei o cara anos depois e agradeci falando que tinha sido algo inesquecível. “Sério? Nem lembrava disso, só lembro de ter transado com alguém embaixo do palco”, ele me respondeu. Não o culpo por esquecer de mim, até porque não era eu quem estava embaixo do palco com ele. Hoje em dia Jorge Ben é um dos motivos de eu evitar a Vila Madalena, e olha que estou separado do bairro apenas pela Heitor Penteado. Só ultrapasso essa linha tênue debaixo da terra para pegar o metrô.

Acervo Estadão: Tom sendo o cara mais legal do Brasil no sinal dos anos 1960

Acervo Estadão: Tom sendo o cara mais legal do Brasil no final dos anos 1960

Minha lembrança mais doce com a música nacional está ligada a Tom Jobim e Vinícius de Moraes.

Eu trabalhava em um emprego o qual odiava mais que Caetano Veloso, mas que pagava bem. Em um feriado prolongado, arrumei uma promoção de hospedagem no hotel Casa Grande, no Guarujá. Não sei hoje, mas na época era uma grande coisa. Os caras te levavam toalhas umedecidas e frutas cortadas na praia, um luxo. Fui com minha antiga namorada e, depois de dormirmos na maior cama de nossas vidas, compramos ingressos para um show do Juca Chaves. Só percebi o erro quando, tomando uma cerveja no bar do hotel, vi o anúncio de que Pedrinho Mattar, o pianíssimo, iria tocar ali na mesma noite. Convenci minha namorada de que precisávamos nos livrar dos ingressos para ver Juca Chaves. Ela hesitou por um momento, mas foi comigo oferecer os tíquetes a outros hóspedes.

Pedrinho chegou atrasado e encontrou um bar completamente vazio. Eu, minha namorada, um bêbado e um equilibrista. Brincadeira, não era um equilibrista, era outro casal. De terno e gravata borboleta, ele deu um boa noite contrariado e sentou atrás do piano de cauda. Não demorou para que o barman trouxesse um copo de whisky. Tocou a primeira música e já pediu aplausos. As cinco pessoas bateram palmas de forma tímida. Todos ainda estavam sóbrios, menos o bêbado.

Drinques e cervejas iam chegando. Agora já eram cinco bêbados, seis se você contar o pianista que desfilava algumas das músicas mais bonitas da bossa nova. Eis que Pedrinho começa a contar uma história: “Eu era um menino no Rio de Janeiro no meio de grandes cobras. Um dia eu estava em um bar e o Vinícius estava muito bêbado. Ele escreveu algumas coisas em um guardanapo e depois que ele foi embora eu li o que estava escrito e guardei o guardanapo para mim. Vou tocar agora a música que ele tinha rascunhado aquele dia.”

Já na primeira estrofe ele parou e disse: “Vocês têm que me ajudar nessa”. Todos começamos a cantar timidamente, mas na altura de “eu sei que vou sofrer”, estávamos gritando a plenos pulmões, como se todo o mundo tivesse que ouvir esta canção. Na verdade todo mundo deveria.

Esse vídeo não tem nada a ver com a história, mas merece ser assistido.

Não bastasse a ausência de Tom Jobim e Pedrinho Mattar, que morreu pouco tempo depois desse encontro no Casa Grande, hoje faz 34 anos que perdemos John Lennon. “Uma piscina de tristeza.”