Billie Holiday, Beyoncé, Kendrick Lamar… a fruta estranha segue pendurada
As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Billie Holiday, Beyoncé, Kendrick Lamar… a fruta estranha segue pendurada

O racismo velado do Grammy e escancarado do Oscar

Alexandre Ferraz Bazzan

18 de fevereiro de 2016 | 06h13

Em 1939, Billie Holiday interpretou pela primeira vez no Cafe Society a música Strange Fruit. Os versos de Abel Meeropol(o compositor da obra), conhecido como Lewis Allan, causaram desconforto até na mais progressista plateia nova-iorquina. A letra era uma crítica escancarada aos linchamentos no sul dos EUA e as ‘frutas estranhas’, penduradas nos alámos, eram os negros que morriam enforcados.

Lady Day não foi a primeira e nem a última a interpretar a canção, mas com certeza a sua versão é a mais dilacerante. Quase 80 anos se passaram, e o racismo permanece entranhado até nas artes como o cinema e a música.

A academia é alvo de um boicote de vários atores negros e o motivo é mais do que justo: não há indicados afro descendentes. Uma porta-voz, mulher e negra, foi escalada para tratar da situação com a imprensa e tentou se esquivar do assunto dizendo que a cerimônia já evoluiu muito. Eu sou de humanas, mas essa conta eu consigo fazer. Até hoje, apenas 4 homens e 1 mulher negros conseguiram levar o reconhecimento principal de atuação. Sim, apenas 5 pessoas em 88 anos – Sidney Poitier, Denzel Washington, Jamie Foxx, Forest Whitaker e Halle Berry.

Na última segunda-feira aconteceu mais um caso velado de racismo. Kendrick Lamar foi indicado a 11 Grammys, mas venceu apenas os prêmios relativos ao rap, 5 no total. A grande vencedora foi Taylor Swift, a primeira mulher a vencer duas vezes o prêmio de disco do ano, uma marca inédita que também é uma aberração já que estamos falando de desigualdade e preconceito.

É inegável que Taylor Swift se tornou um fenômeno pop incontestável, mas comparar o seu 1989 com To Pimp a Butterfly chega a ser crueldade. O poder transformador do trabalho de Lamar é tão grande que ele chegou a influenciar David Bowie em seu álbum derradeiro. Para os ouvidos não muito bons(como o meu) que conseguiram ignorar o disco em 2015, a apresentação do cantor no Grammy fez questão de arrebatar até o mais indiferente telespectador. Ele subiu ao palco com outros dançarinos negros, todos algemados, e começou cantar acompanhado por um saxofonista encarcerado em uma pequena cela. Assista trecho abaixo:

Há quem vá dizer que vários artistas já venceram categorias importantes no Grammy, mas como evitar premiar Stevie Wonder ou Quincy Jones? Seria algo que arruinaria a pouca credibilidade que a cerimônia tem. Entretanto, os vencedores sempre reforçaram a indústria de alguma maneira. Esse não foi o caso de Kendrick Lamar. De fato, “o pop ainda não está preparado” para ele.

Kendrick Lamar no Grammy - Matt Sayles/AFP

Kendrick Lamar no Grammy – Matt Sayles/AFP

Os boicotes a Beyoncé. A cantora lançou, na véspera do Superbowl, seu novo single, Formation, acompanhado de um clipe que é uma super produção e faz referência ao furacão Katrina, quando vários negros ficaram desalojados e relatos contam que houve muitos casos de estupros e condições desumanas. O vídeo também lembra os negros mortos por policiais e fica clara a menção a Trayvon Martin, de 17 anos, baleado em 2012 por um vigia por estar trajando um casaco com capuz(o caso foi registrado como legítima defesa). Assista versão legendada do clipe:

A nova música foi muito criticada, eu mesmo achei alguns trechos da letra bem pueris, mas depois que você vê pessoas como Angela Davis e Djamila Ribeiro elogiando a cantora, você tem que dar o braço a torcer.

Essa não é a primeira vez que Beyoncé usa a contestação como uma forma de empoderamento. Em Flawles, ela faz um sampler de um discurso feminista da escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie e o resultado é de arrepiar.

Bem, a apresentação da cantora na final do futebol americano, de alguma forma, conseguiu gerar ainda mais revolta em setores conservadores da sociedade americana. O ex-prefeito de Nova York, Rudolph Giuliani, foi o primeiro a atacar o show dizendo que as dançarinas vestidas como ativistas do grupo dos anos 60 Black Panthers colocava as pessoas contra os policiais, os responsáveis por manter a segurança, segundo ele.

Não demorou para que pipocassem boicotes contra Beyoncé, obviamente fracassados pelo simples fato de ela ser uma das cantoras mais famosas do mundo. A questão que fica é: por que em 2016 a simples pixação “parem de atirar em nós” ainda causa mais revolta do que o tiro em si?

Enquanto isso não mudar, os negros continuaram a fazer a pergunta que Lil Wayne cantou em 2013 cada vez que sairem de casa: “Hoje eu vou morrer ou vou para a cadeia?” Deus abençoe a América.

Leia mais:

O rock não morreu, ele virou hip hop

O que houve, Srta. Simone?

Difícil como uma manhã de domingo

Sou um perdedor

Grammy, você não vale nada (mas eu gosto de você)

Tudo o que sabemos sobre:

BeyoncéBillie HolidayKendrick Lamar

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências: