Beatles, 1968
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Beatles, 1968

Alexandre Ferraz Bazzan

10 Novembro 2018 | 19h23

No começo de 1968, um jovem de 23 anos chamado Paul Saltzman resolveu fazer um retiro em Rishikesh, na Índia, para superar o fim de seu namoro. Na mesma época, outros quatro rapazes buscavam expandir a mente, aprender meditação e superar a morte de um amigo chamado Brian Epstein. O nome deles era John, Paul, George e Richard, que tinha o apelido de Ringo, e juntos eles formavam a banda conhecida como Beatles. Eles se encontraram no mesmo lugar e o Paul menos famoso tirou essa e outras fotos.

Ringo, John e Paul no retiro de Marahish – Foto: Paul Saltzman

Ringo passou uma semana na Índia, Paul, 1 mês, e John e George, 3 meses. Eles não encontraram a iluminação esperada, especialmente depois dos rumores de que o guru Maharish assediava garotas no retiro, mas voltaram com a bagagem cheia de músicas. Especialmente Lennon. Em maio, todos os Beatles já estavam de volta à Inglaterra e decidiram gravar as músicas na casa de George, em Esher, perto de Londres.

A casa psicodélica de George Harrison. As demos do disco branco foram gravadas lá

O guitarrista tinha um gravador de quatro canais e as canções foram registradas em clima de festa e camaradagem. Depois de todas as experimentações de Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band, eles queriam voltar a ser uma banda que tocava em tomadas ao vivo com todos os integrantes juntos.

Após o encontro, os Beatles chegaram a Abbey Road com mais de 30 músicas, mas o sentimento amistoso não era mais o mesmo. Entre as gravações em Esher e o período no famoso estúdio, eles abriram a gravadora Apple, que gerava muitos gastos e preocupação, e Lennon se separou de sua mulher Cynthia para começar um relacionamento com a artista Yoko Ono. Na verdade o relacionamento começou quando John e Cynthia ainda eram casados. Ele se encantou com a artista depois de ver uma obra com a palavra sim.

John e Yoko gravaram um disco chamado Two Virgins, que tinha a capa com os dois nus. A paixão foi instantânea e a aproximação dos dois gerou a princípio certo descontentamento com os outros integrantes dos Beatles. Ringo chegou a deixar a banda por alguns dias, mas recebeu um telegrama que dizia: “Você é o melhor baterista do mundo, nós te amamos”. Ele resolveu voltar.

Outro problema era o volume de músicas. Excetuando Ringo, que tinha apenas duas composições, todos os outros queriam espaço para suas canções. John tinha por volta de 17, Paul 10 e George 6 novas músicas. A solução foi fazer um álbum duplo. O produtor George Martin advogava contra um disco tão longo, mas foi voto vencido. O resultado foi possivelmente a melhor coleção de músicas dos Beatles, mas sem coerência ou fio condutor como conceito. Ali, você tem a precursora do heavy metal e hard rock Helter Skelter, mas também a sussurrada Long, Long, Long.

Mesmo com um álbum de 30 músicas, muitas ficaram de fora. Polythene Pam e Mean Mr. Mustard, das gravações em Esher, entrariam apenas no disco Abbey Road e uma versão inicial de Let It Be e Across The Universe(feitas já no estúdio) ficariam para o Let It Be. Junk entraria apenas no primeiro trabalho de Paul, George também seguraria Not Guilty e Circles para sua carreira solo e John trocaria o nome e as letras de Child Of Nature para fazer uma das músicas mais bonitas de todos os tempos no disco Imagine: Jealous Guy.

Nova caixa especial. Para comemorar os 50 anos do lançamento do disco branco, foi criado um box especial com todas as demos gravadas em Esher e também alguns dos takes de estúdio. A versão física ainda traz um livro e um blue-ray. Apesar de ser conhecido como o “Disco Branco”, o álbum na verdade chama apenas The Beatles, sugestão do artista Richard Hamilton, que colaborou com Paul McCartney para criar a discreta e famosa capa. O novo material ainda traz uma nova mixagem do filho de George Martin, Giles, que já tinha feito a caixa especial dos 50 anos de Sgt. Peppers no ano passado.

A caixa ainda traz como curiosidade as enormes quantidades de takes para acertar as músicas. While my guitar gently weeps teve ao menos 27 versões, Blackbird, 28, Happiness is a warm gun não menos do que 19 tomadas, Long, Long, Long, 44, e Not Guilty incríveis 102 takes para ser posteriormente descartada. Como os Beatles queriam voltar a tocar juntos e “ao vivo”, eles faziam várias versões e depois escolhiam a melhor. A ideia não só tirou o poder do produtor George Martin, que ficou louco tentando controlar os rapazes de Liverpool, mas também ajudou a criar animosidade entre todos, deixando o processo muito mais desgastante. O resultado, entretanto, é lindo do mesmo jeito.

Histórias por trás das músicas:

Sexy Sadie

Decepcionado com o guru Maharish, que estava sendo acusado de assédio contra pupilas do retiro, John escreveu:

Maharish what have you done
You made a fool of everyone
You made a fool of everyone
Mahararish, ooh, what have you done
Maharish, you broke the rules
You laid it down for all to see
You laid it down for all to see
Maharish, ooh, you broke the rules

A pedido de George, que não acreditava nas acusações, ele trocou o nome de Maharish para Sexy Sadie

Dear Prudence

A atriz Mia Farrow estava com sua irmã, Prudence, no mesmo retiro que os Beatles. A irmã teve um ataque de pânico e não saía de seu chalé por nada. John e Paul foram conversar com ela e Lennon acabou compondo a canção.

Why don’t we do it in the road?

Paul e John viram macaquinhos copulando perto de onde estavam e tiveram a ideia para a música.

Back in the U.S.S.R.

É uma paródia de California Girls, do Beach Boys. Mike Love, o vocalista da banda, estava no mesmo retiro.

Helter Skelter

Paul viu uma entrevista de Pete Townshend em que ele dizia ter feito a música mais barulhenta, crua e suja do The Who até então. McCartney quis superar o barulho e eles tocaram por vários minutos para conseguir o resultado que ele queria, até Ringo gritar: “Eu estou com bolhas nos meus dedos”. A música do The Who era I can see for miles.

While my guitar gently weeps

George estudava a filosofia I Ching que versava sobre “coincidências” e dizia que elas não aconteciam por acaso. Parar provar isso, ele abriu um livro na casa dos pais e escolheu duas palavras para escrever a música. Na página aleatória estava escrito “gently weeps”.

Durante as gravações, Harrison não conseguia convencer os colegas sobre a importância da música. Um dia, antes de ir para o estúdio, ele falou com Eric Clapton e convidou o guitarrista para tocar na faixa dele. Clapton a princípio hesitou porque os Beatles não tinham o costume de receber participações externas, mas aceitou e fez com que todos se concentrassem com maior seriedade na canção.

Happiness is a warm gun

John ficou assustado com uma propaganda em uma revista que dizia que a felicidade era uma “arma quente”. Algumas interpretações diziam que a música era uma referência a heroína, mas Lennon sempre negou, assim como negou que Lucy in the sky with diamonds era sobre LSD.

Hey Jude

É uma homenagem de Paul ao filho de John, Julian, que estava triste com a separação dos pais. A composição inicial dizia “Hey Jules”.

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Você pode ouvir o especial de 50 anos do disco branco em todos os serviços de streaming

PS-O fim do ano dos Beatles ainda reservou uma ceia de natal com integrantes da gangue Hell’s Angels. George conheceu alguns deles nos EUA e disse que eles deviam procurá-lo se algum dia estivessem na Inglaterra. Os motoqueiros chegaram em Londres e moraram por um tempo no escritório da Apple, mas, do mesmo jeito que os convidou, George Harrison botou os arruaceiros para correr: “yin e yang, sim e não, dentro e fora, vocês vieram e agora vão embora”.