Ativistas querem mudar o hino dos EUA
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Ativistas querem mudar o hino dos EUA

Autor do poema era proprietário de escravos e há trecho ofensivo aos negros na letra

Alexandre Ferraz Bazzan

30 de junho de 2020 | 04h49

A morte de George Floyd, asfixiado por 8 minutos e 46 segundos por um policial, gerou uma onda de protestos contra o racismo e a violência policial nos EUA e no mundo. Os atos tinham no início focos bem específicos: justiça para os negros assassinados e a reforma das polícias. Depois que os ingleses derrubaram e atiraram a estátua de um comerciante de escravos em um rio, em Bristol, a pauta foi ampliada e símbolos racistas começaram a entrar na mira dos manifestantes.

…E o Vento Levou foi retirado de um serviço de streaming, as bandas Dixie Chicks e Lady Antebellum mudaram de nome, respectivamente, para Chicks e Lady A, para ocultar palavras que tinham ligação com o passado confederado do sul do país, o Estado do Mississipi resolveu tirar o símbolo confederado de sua bandeira e algumas estátuas foram derrubadas ou realocadas voluntariamente. A “vítima” mais recente é o hino nacional dos Estados Unidos.

Manuscrito original do hino dos EUA

Um trecho do hino americano diz que “Nenhum refúgio poderia salvar os mercenários e os escravos do terror da fuga ou da escuridão da sepultura”. Historiadores contam que alguns negros lutaram ao lado dos ingleses na guerra que culminou com a independência dos EUA. Os escravos tinham a promessa de se tornarem libertos ao fim do conflito. Um outro agravante seria o fato de o autor da letra, Francis Scott Key, ser não apenas proprietário de escravos, como advogado de proprietários de escravos. Um defensor do “direito” de possuir pessoas.

Mas então o país ficaria sem hino? Não. Um abaixo-assinado com mais de 3 mil assinaturas pede para que a nova canção nacional seja America The Beautiful. O ativista e jornalista Kevin Powell sugere a troca por Imagine de John Lennon. Um time de futebol de Tulsa se antecipou e já toca This Land is Your Land, de Woody Guthrie, no lugar de The Star-Spangled Banner, nome do hino nacional, em todos os seus jogos.

Manifestantes derrubaram uma estátua de Francis Scott Key, em São Francisco.

A polêmica envolvendo a derrubada de estátuas

O ataque a esses objetos inanimados tem gerado um debate entre historiadores e leigos. Alguns defendem que os monumentos são a representação de uma era e têm importância estética, mas acontece que boa parte das estátuas foram feitas muito tempo depois da morte de seus representados.

Os republicanos, em especial, são críticos a esse tipo de destruição, apesar de soldados americanos terem derrubado estátuas de Saddam Hussein, no Iraque, quando os EUA invadiram o país por ordem de George W. Bush. Os militares também fizeram vista grossa para saques do museu iraquiano mais importante. Estátuas pesadas demais para serem transportadas foram derrubadas dos pedestais, transformando em pó seus ombros de 3 mil e 4 mil anos.

Soldado americano cobre o rosto de estátua de Saddam Hussein, no Iraque – Foto: Goran Tomasevic/Reuters

Soldado americano observa enquanto estátua de Saddam é derrubada – Foto: Goran Tomasevic/Reuters

Em Budapeste, as estátuas com referências comunistas, ou o que sobrou delas, foram retiradas da cidade assim que o regime soviético ruiu. Um museu foi feito bem longe do centro para abrigar esses monumentos. O Memento Park vende souvenires com as fotos de Lênin, Stalin e Mao Tsé-Tung  escrito embaixo “Os três terrores”. A brincadeira com os três tenores e demais informações do museu deixam claro que aquilo não é uma homenagem, mas uma lembrança de um período violento do país que não deve se repetir.

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