Arte em tempos de pandemia
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Arte em tempos de pandemia

Obras lançadas durante a quarentena terão no futuro um valor emocional muito maior do que qualquer grande sucesso comercial adiado para fazer mais dinheiro

Alexandre Ferraz Bazzan

08 de maio de 2020 | 04h02

Um senhor de 40 e poucos anos é internado com suspeita de coronavírus. Quatro dias depois da sensação diária de afogamento, ele é levado para a UTI para ser auxiliado por um ventilador mecânico. Sem poder falar, mas ainda mantendo a lucidez, ele pede um pedaço de papel para o enfermeiro e escreve o seguinte recado: “Diga para a minha mulher que eu a amo e que eu gostaria de assistir ao novo filme do Wes Anderson”. Mais quatro dias se passam e ele morre sem assistir The French Dispatch porque a produtora adiou o lançamento para outubro por óbvias razões financeiras.

Essa história não aconteceu, mas poderia ter acontecido.

Antes da quarentena, eu tinha o costume de conversar com meu amigo Marco Antônio Carvalho ao fim do expediente de cada dia na redação do jornal. Além de ser um grande repórter do atual núcleo responsável pela cobertura da pandemia de covid-19, ele é o capitão da newsletter chamada Boletim Coronavírus, que você pode assinar aqui. O Marco apelidou esse bate-papo diário nosso de “Limão Connection” (a sede do Grupo Estado fica no bairro do Limão, em São Paulo), e em um dos últimos dias de trabalho presencial ele me mostrou o trailer de The French Dispatch, que conta a história de jornalistas americanos expatriados na França que trabalham em uma revista muito parecida com a New Yorker.

Alguns dias se passaram e a ansiedade para ver The French Dispatch me fez lembrar do filme Fan Boys. Sugeri ao Marco que entrássemos em contato com o Wes Anderson inventando que um de nós teria uma doença terminal e nosso último desejo seria assistir à nova obra do diretor. Você já deve percebido que essa amizade é uma balança comercial de cultura desfavorável para ele. Enquanto ele aparece com Wes Anderson, eu devolvo com um besteirol sobre Star Wars. Toda partida de frescobol precisa de um jogador melhor para não deixar a bolinha cair.

Qual não foi minha surpresa ao descobrir que a distribuidora de Wes Anderson adiou a estreia? E PARA OUTUBRO 😱. Desde então eu tenho refletido sobre as obras culturais que foram adiadas e os artistas que fizeram questão de manter ou até avançar lançamentos para deixar o tempo de isolamento mais tolerável. Não se deixe enganar pelas doações milionárias de bilionários que pipocam todos os dias como se fossem a salvação da lavoura, depois dos profissionais de saúde, os artistas serão os trabalhadores que mais vão salvar vidas nesses tempos difíceis. Menos a Regina Duarte, é claro. Por esse motivo, todos aqueles que abrem mão de um lucro maior em outra época ou que conseguem convencer gravadora ou produtora de que esse momento é fundamental para entreter as pessoas já têm um lugar cativo no meu coração. Obras lançadas durante a quarentena terão no futuro um valor emocional muito maior do que qualquer grande sucesso comercial adiado para fazer mais dinheiro, e isso é importante na criação dos clássicos.

A Fiona Apple, acostumada com um isolamento voluntário, nos deu um pão delicioso para sobrevivermos e levantarmos da cama mesmo quando a cabeça parece falar “fique deitado”, como o fortão que nocauteia seguidas vezes o Paul Newman em Rebeldia Indomável. Nosso nocaute é psicológico, mas nós levantamos, nem que seja para ir até a sala.

A inventividade da compositora e cantora americana nos trouxe uma coleção de músicas pouco convencionais com percussões malucas que incluem batidas de pés no chão, sinos, cadeira???, barulho de coleira e participações vocais de alguns cachorros, que são creditados no disco:  Mercy Maddle, Leo e Alfie. As esquisitices deixam as coisas mais interessantes, mas são as letras e a voz de Apple somada ao piano que fazem de Fetch the Bolt Cutters um grande disco.

Música para não ficar apavorado

A Amanda Petrusich, da revista New Yorker, lembra que The New Abnormal é o segundo álbum dos Strokes lançado depois de uma grande tragédia. Is This It? saiu logo depois do 11 de setembro e ela fala de um tempo em que as pessoas precisavam esquecer dos problemas sérios e pensar um pouco sobre bebedeiras e ressacas, dançar e cantar olhando no olho de alguém do outro lado da pista e quem sabe transar com essa pessoa ao fim da noite (ou começo da manhã seguinte). Nós envelhecemos e eles também. Ninguém aqui vai sair transando com desconhecidos, especialmente em época de pandemia, e, como diria Hank Willians Jr., as ressacas machucam muito mais do que antigamente, então também vamos dar uma segurada nos pilequinhos.

A banda nova iorquina volta a usar a nostalgia para fazer todo mundo se sentir bem. Eles estão menos acelerados do que no começo do século, mas as guitarras continuam afiadas e o baixo segue com linhas bonitas. Os falsetes de Julian Casablancas deixam de irritar depois da terceira ou quarta vez que você ouve The New Abnormal e você se pega dando gritinhos agudos enquanto lava a louça pela milésima vez. As letras continuam bobas, mas é disso que a gente precisa no momento –  de cantar em alto e bom som “I WANT NEW FRIENDS, BUT THEY DON’T WANT ME” ou “MAKING BAD DECISIONS Ô Ô”. Tudo isso para esquecer que o principal programa do momento é ir ao supermercado e que isso dá um medo danado. Chega de ficar apavorado, vai passar.

Nas entrevistas em que deu recentemente, Casablancas disse que foi consultado sobre adiar o lançamento, mas bateu o pé e brincou que a impossibilidade de sair em turnê para promover as novas canções era na verdade uma coisa boa.

Os Strokes entraram de cabeça nessa quarentena. Eles criaram até um programa no YouTube, que já tem três episódios. São videochamadas entre os integrantes da banda e além das músicas novas, eles falam de outros artistas, política e até mostram um orangotango usando um serrote para cortar madeira. É um besteirol quase tão bom quanto Fan Boys.

Para terminar, Bob Dylan lançou uma nova música e anunciou seu primeiro disco de inéditas em oito anos. False Prophet é o terceiro single. Antes vieram I Contain Multitudes e a monumental Murder Most Foul, de quase 17 minutos. As três estarão no álbum Rough and Rowdy Ways, que chega no dia 19 de junho.

Já é sexta-feira, não se esqueça disso.

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