Animais de ‘subestimação’: a morte de Tommy Keene(e outras histórias)
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Animais de ‘subestimação’: a morte de Tommy Keene(e outras histórias)

Um dos compositores mais constantes do power-pop vai embora aos 59 anos e muita gente, incluindo eu, ainda não o conhecia

Alexandre Ferraz Bazzan

27 de novembro de 2017 | 06h35

Tommy Keene

Na madrugada da última sexta-feira começaram a pipocar notícias em sites internacionais sobre a morte de Tommy Keene, além de homenagens em algumas páginas de Facebook. Ele foi cedo, aos 59 anos, mas conseguiu manter uma carreira consistente, com 11 discos de estúdio, quatro EPs, três compilações, um disco ao vivo e parecerias e participações como músico de apoio nos trabalhos de pessoas como Peter Buck, do R.E.M., Robert Pollard do Guided By Voices, Goo Goo Dolls, Gin Blossoms e, o meu Deus pessoal, Paul Westerberg, dos Replacements. Mesmo com tudo isso, eu consegui ignorá-lo por toda a minha vida.

Virei a noite ouvindo todos os discos dele que estão disponíveis para streaming e é uma surpresa que sua música nunca tenha cruzado meu caminho.

Keene teve oportunidades tanto em uma gravadora gigante, a Geffen, quanto na independente e cultuada Matador, mas nunca conseguiu um grande público. Se por um lado a carreira dele não teve grandes variações de estilo ou experimentações, por outro, você escuta os últimos discos e não sente que foram registros “cansados” ou para impulsionar uma turnê, tentar se manter no jogo. Behind the Parade, de 2011, é uma coleção de músicas tão boa quanto o EP Places That Are Gone, de 1984, que foi responsável por captar a atenção da Geffen.

Keene teve uma banda com Robert Pollard, do Guided By Voices, chamada The Keene Brothers, que rendeu um disco. Em uma entrevista de 2011, o jornalista perguntou se ele gostaria de fazer o mesmo tipo de parceria com algum outro músico e ele deu três nomes: Paul McCartney, Bruce Springsteen ou Elvis Costello. Ele ainda brincou dizendo que o repórter poderia apresentá-lo aos possíveis novos parceiros. Não deu.

Outros artistas que me passaram batido por tempo demais:

Jason Molina:

Jason Molina

Num desses momentos de fim de ano bem tristes e um pouco desiludido do jornalismo, especialmente do jornalismo cultural, dei um google procurando alguma referência e achei essa coisa maravilhosa do Chicago Reader. A brilhante reportagem falava sobre o fim da vida de Molina, sua morte e problemas com alcoolismo, mas também sobre seu início de carreira, a consolidação como compositor na banda Songs: Ohia e posteriormente na Magnolia Electric Co, para mim a parte mais brilhante de uma carreira prolífica.

O álbum Josephine da Magnolia Electric Co é um dos pontos altos do catálogo de Molina. Gravado no estúdio de Steve Albini, um dos produtores mais respeitados da música, o disco traz tristeza e beleza na mesma medida. No documentário sobre a produção, Albini trata Molina como um grande compositor, mesmo sem ele ser um grande nome da indústria. Não é pouco para quem já gravou Nirvana e Pixies.

Walter Schreifels:

Walter Schreifels

Do finals dos anos 1980 para cá, Schreifels fez parte de diversas bandas dos mais variados estilos: Gorilla Biscuits, Youth of Today, Rival Schools, Moondog, Walking Concert, CIV. Pode ser que eu tenha esquecido alguma, mas o que me pegou mesmo foi o único álbum solo dele, lançado em 2010, trazido pela gravadora HBB para o Brasil no ano passado.

Open Letter to the Scene é o tipo de disco que você vai ouvir e terminar com um sorriso no rosto. São baladas despretensiosas que falam desde Arthur Lee, da banda Love, até Lil Kim e Gwen Stefani, além de uma homenagem a Ray Raybeez Barbieri, da banda Warzone. Entretanto, as referências são apenas pano de fundo para falar sobre tentar realizar as coisas e nem sempre conseguir, mas seguir tentando.

Jenny Mae:

Jenny Mae

Jenny Mae é mais uma que morreu cedo e lutou contra o alcoolismo, mas igualmente talentosa aos artistas acima. Assim como Keene, ela teve contato com o Guided by Voices quando ela dividiu um single com a banda. Robert Pollard não poupou elogios.

A cantora morreu em agosto deste ano, aos 49 anos, e deixou apenas dois discos terminados: There’s a Bar Around the Corner…Assholes, de 1995 e Don’t Wait Up for Me, de 1998. Segundo a Pitchfork, ela, que era de Ohio, se mudou para a Flórida no começo do século com a promessa de um terceiro disco que nunca veio. Resta ouvir aos dois bons trabalhos que ela deixou como legado.

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