Adam Lambert foi tecnicamente perfeito e isso não tem a menor importância
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Adam Lambert foi tecnicamente perfeito e isso não tem a menor importância

Durante o debate acalorado nas redes sociais houve quem defendesse veementemente que o vocalista substituto da ocasião não é Freddie Mercury. Dada a obviedade do argumento, acho que não é preciso mobilizar uma força-tarefa da Lava Jato para investigar isso

Alexandre Ferraz Bazzan

19 Setembro 2015 | 07h32

Nos anos 80 existia uma banda chamada Menudos que trocava os integrantes quando eles atingiam determinada idade. O motivo disso pode ser explicado pelo fato de os mais velhos não terem mais os requisitos de beleza, de dança e vivacidade. Isso pouco tem a ver com o Queen, mas é que existe gente defendendo a performance do ex-american idol dizendo que ele é tecnicamente perfeito. Talvez até melhor que o Freddie Mercury.

Mesmo do além, Freddie Mercury ofusca Lambert -  Foto: FABIO MOTTA/ESTADÃO

Mesmo do além, Freddie Mercury ofusca Lambert – Foto: FABIO MOTTA/ESTADÃO

O debate todo é uma grande bobagem, mas, ainda assim, é melhor do que reclamar que está muito calor. Imaginem se discutíssemos sobre o Queen no elevador no lugar de falar: “esquentou, hein.” O mundo seria um lugar melhor para se viver.

O engraçado é que quem gostou, assim como quem odiou, do vocalista substituto tem como primeiro argumento: “ele não é o Freddie Mercury.” É o argumento mais estúpido que alguém pode usar na vida para qualquer coisa. É o mesmo que comer jiló e dizer: “não é uma picanha suculenta” ou que comer uma picanha suculenta e dizer: “não é um jiló.” Perceba que, não importa o que você esteja comendo ou defendendo, se você usar esse tipo de argumento, você vai parecer bobo e maluco e espero que eu não precise explicar o porquê.

Há quem diga que essas trocas são normais. O Pearl Jam trocou várias vezes de baterista, os Stones trocaram de guitarrista e o AC/DC de vocalista, então todo mundo pode. Em todos esses casos a intenção foi de seguir uma carreira. Matt Cameron gravou 5 discos com o Pearl Jam, Ron Wood tocou em 10 álbuns dos Stones e Brian Johnson cantou em 11 discos do AC/DC, 4 a mais que Bon Scott que eu particularmente prefiro apesar de reconhecer as limitações dele quando se trata do quesito se manter vivo.

O Queen claramente não tem a menor intenção de estender o legado da banda. Freddie Mercury morreu em 1991 e desde então não houve esforço em arrumar alguém que pudesse de alguma forma calçar os calçados do vocalista, ou criar sandálias próprias para mudar os rumos do grupo.

É licito que se faça shows com um novo personagem, Brian May e Roger Taylor são donos do próprio legado e construíram algo que a maioria de nós não faria se vivesse quatro vidas, mas toda vez que você não quer fazer algo novo com alguém, você acaba, mesmo sem querer, maculando algo que ficou no passado. E ninguém aqui quer que eles assumam isso publicamente como Paul Westerberg*.

Ainda teve gente que fez a defesa da qualidade técnica de Lambert. É algo válido, mas, para quem cresceu ouvindo Nirvana, isso é totalmente sem sentido. A última revolução do rock foi feita exatamente para que houvesse mais espontaneidade e um pouco menos de preocupação em atingir todas as notas. Alguns gaúchos até disseram que o vocalista é “tri bom”, mas eu não sei o que esse “tri” significa.

*O vocalista dos Replacements pintou letras nas camisetas da turnê de reunião da banda. Ao final da excursão o conjunto formava a seguinte mensagem: “Eu sempre te amei, agora eu tenho que prostituir meu passado”

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