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A música ‘nova’ de Kurt Cobain e o mercado da saudade

Dos hologramas às músicas inéditas que já foram ouvidas anteriormente, o mundo está cada dia mais esquisito

Alexandre Ferraz Bazzan

06 Outubro 2015 | 16h23

“Querido, Max… Meu último pedido: que tudo o que eu deixo para trás, diários, manuscritos, cartas (minhas e dos outros), esboços e tudo mais sejam queimados sem ler.” Esse era o desejo de Kafka para o seu espólio, mas Max (Brod), seu amigo e editor, desobedeceu o gênio do absurdo, colocou tudo em uma mala e fugiu para a Palestina pouco antes de os nazistas invadirem a antiga Checoslováquia.

Esse não é o único caso em que os pedidos de um autor falecido foram ignorados(talvez para o bem da humanidade que foi brindada com O Processo), mas essa é provavelmente a história mais emblemática. No caso de Brod, a preocupação foi claramente em não inutilizar um material precioso por um pedido de um Kafka desestabilizado mentalmente.

Foto: Reprodução - Pôster de Montage of Heck

Foto: Reprodução – Pôster de Montage of Heck

Brett Morgen, diretor de Montage of Heck, prometia em entrevistas que mostraria um outro lado de Kurt Cobain e músicas inéditas. Ele cumpriu em parte o que alardeou na mídia. De fato existem imagens ainda não publicadas legais, mas a maioria de foro íntimo e que mudam pouco a visão do artista. Agora anunciam uma música inédita que de inédita não tem nada.

Sad é uma versão inicial de Sappy, canção que o Nirvana tocou algumas vezes ao vivo e foi gravada nas sessões de In Utero, mas não entrou no álbum. Todos os compositores costumam ter um gravadorzinho para registrar ideias iniciais. Keith Richards levantou no meio da noite depois de sonhar com o riff de Satisfaction e Paul McCartney tocava com frequência uma música boba chamada Scrambled Eggs ao piano, até ela evoluir para Yesterday.

Me parece que essa, não é a versão definitiva de Sad, já que ele gravou algo totalmente diferente. Isso é o que autores fazem com suas ideias. Eles esboçam algo inicialmente e trabalham até que aquilo chegue o mais próximo do que a ideia da sua cabeça. O Nirvana lançou Nevermind, Inseticide, In Utero e gravou o Unplugged in New York depois de Sad ter sido escrita e em nenhuma das oportunidades Cobain teve o impulso de lançar a canção.

Todo mundo agora levanta a hipótese de que Kurt Cobain estaria se inclinando para um som mais acústico antes de morrer e Sad corroboraria para isso. A verdade, porém, é que a demo foi feita em 1988 e chegou a ser lançada no box With The Lights Out em 2004 com a versão definitiva, já que foi a última que ele gravou, e era bem pesada. O vocalista deu entrevistas em que dizia que não iria aguentar berrar toda noite com 50 ou 60 anos, mas não conseguiu se afastar das distorções nem para o acústico da MTV. Em The Man Who Sold the World, cover de David Bowie, ele usa um efeito em seu violão e chegou a dizer na época para a organização que tinha medo de ser questionado por ter feito um show que não era totalmente ‘desplugado’.

Brett Morgen precisa vender seu produto, mas, apesar de marqueteiro, ele poderia não mentir. Sad, obviamente, não é nova e tampouco é inédita. Além das versões elétricas com o Nirvana, a demo calminha já circulava na internet. Exemplo é o vídeo abaixo, publicado em 2011- bem antes de o documentário ser lançado.

O surrealismo dos hologramas. A primeira vez que algo aconteceu nessa linha(shows com hologramas) foi com John Coltrane em Vanilla Sky. Como o filme é todo maluco, uma coisa desse tipo passa batida. Aí veio o Tupac no festival Coachella e o Cazuza aqui no Parque do Povo, em São Paulo.

A proposta é divertida, quando feita de forma pontual, mas agora falam em fazer uma turnê internacional com Whitney Houston. Eu me pergunto, qual o sentido de rodar o mundo com a imagem de uma pessoa que morreu? Existe um vazio tão grande na música? Qual o próximo passo? Clones de Jimi Hendrix e Jim Morrison? A imagem está tão valorizada nos dias de hoje que ela nem precisa existir para ter valor. Estamos a poucos passos de namorar hologramas e ninguém parece se importar.

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