A maldição de Frank Sinatra
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A maldição de Frank Sinatra

Alexandre Ferraz Bazzan

22 de novembro de 2017 | 06h36

Domingo à noite e ela só quer ligar a TV para assistir ao Fantástico ou qualquer coisa que faça barulho enquanto ela adormece, mas não. Ela coloca os sapatos e dirige até o aeroporto. O avião está novamente atrasado.

– Será que vai estar muito frio quando eu chegar em São Paulo? – se pergunta o filho em voz alta.

– Calma, eu tenho a temperatura de lá – e saca o celular.

Conforme o dedo vai passando, a tela vai mudando de cidade: Ribeirão Preto, onde ela mora, Paris, o lugar dos sonhos, mais uma e … Atlanta?

– Para quê você tem a temperatura de Atlanta no seu celular?

– Tenho desde aquela vez que você foi para lá.

Fim do primeiro ato.

Se estivesse vivo, Frank Sinatra faria 102 anos no próximo dia 12 de dezembro, mas esse texto não é sobre ele. É sobre New York, New York. Sobre a maldição feliz que ele me deixou de sempre ter que dançar em festas. Logo ele, que disse que não ia dançar.

Eu tinha 11 anos quando minha mãe resolveu se separar do meu pai. Foi quando ela achou que os filhos já estavam grandes o suficiente para entender e suportar pais em casas separadas. Ela abriu mão de tudo, arrumou viagens para a praia, a quase 500 km de casa, mesmo sem muito dinheiro e sem nunca ter caído na estrada. Ela enfrentou todos os medos, inclusive dos intermináveis túneis da Serra do Mar.

Ela abriu mão de tudo, menos de uma coisa. Dançar nas festas de formatura, casamento e aniversário. Sempre que um dj ou uma banda começavam a tocar New York, New York, eu já me levantava. No começo foi um pouco desconcertante porque eu era mais baixo que ela e muito tímido. Hoje sou só muito tímido. Durante os últimos 27 anos, apesar dos pisões no pé(porque eu danço muito mal), ela sempre soube que, enquanto eu estivesse presente, ela teria um par para dançar Sinatra. Ela ainda pode contar comigo quando se trata de danças e eu sei que posso contar com ela para todo o resto.

Agora, 6h21 da manhã, eu lembro dela enquanto ouço o disco que o Caetano fez no exílio. Me aperta o coração saber que talvez ela precise de mim para mais que uma dança e eu não possa estar lá. Eu sei que ela criou quatro crianças insuportáveis e mais duas doces(entre filhos, sobrinhos e neta), que ela resolve tudo para todos e que já há algum tempo cuida dos meus avós como se ela fosse a mãe deles. Eu queria, porém, assim como Caetano, que ela me mandasse uma carta(mensagem ou telefonema) dizendo que as coisas estão melhores.

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