A irresistível chatice de Paul McCartney
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A irresistível chatice de Paul McCartney

Alexandre Ferraz Bazzan

19 de novembro de 2014 | 09h23

Há aproximadamente quatro anos um rapaz abraçava a namorada após ouvir Paul McCartney tocar Something, música dos Beatles composta por George Harrison, a canção de amor mais bonita já feita por um ser humano(Frank Sinatra concorda comigo nessa). “Ouvir essa música ao vivo muda tudo”, dizia ele.

Ele saiu dali em êxtase entoando o ‘na na na’ de Hey Jude com amigos. High five com um dos policiais que patrulhava a saída. High five com um motorista de ônibus que estava parado no trânsito infernal que todo fim de show provoca na região do Morumbi. O casal voltou pra casa, tomou banho junto e transaram apenas uma vez. Apesar da paixão, aquele domingo, como todos os outros, seria sucedido por uma segunda-feira. Naquele dia o Papa Bento XVI havia aceitado o uso de camisinha em alguns casos como a prostituição, mas não da forma que o casal usou. Eles estavam contrariando as recomendações do pontífice. Mais que isso, eles estavam pecando.

No dia seguinte ela foi trabalhar, ele foi estudar, ou tentou ir. Um amigo ligou dizendo que tinha um ingresso sobrando para a segunda apresentação do ex-Beatle. Será? Em plena segundona? Depois de hesitar um pouco, lá foi ele. Tomaram um táxi, ele e o amigo, mas o tráfego estava ainda mais carregado que no domingo. Chegaram na terceira música. Paul tocou quase o mesmo set. Fez exatamente as mesmas piadas. Ainda assim foi um show bom quando comparado com o que você vê por aí.

O rapaz voltou pra casa. Dessa vez sem high fives, sem ‘na na nas’, sem transar. Aquele relacionamento ainda durou uns seis meses, mas isso não tem nada a ver com Paul McCartney.

Na próxima terça-feira novos casais vão trocar juras, e o amor romântico vai ser exaltado como só Paul consegue fazer.

Não há nada de errado nisso. Incrível é que, assim como em 2010, ocorrerão as mesmas homenagens- a John, George e Linda-, o set será bem parecido, apesar do último e bom disco, New, e o rapaz continuará se emocionando. Talvez seja o talento deste senhor para revirar o passado, ou quem sabe a dialética de Heráclito que dizia que um homem não se banha duas vezes no mesmo rio.

Entretanto, esse dom de demolir o tempo é meticulosamente planejado. Existem duas categorias de chatos neste mundo, aqueles que não fazem nada para atender às expectativas. É o caso de Bob Dylan, que não toca vários de seus hits nos shows e muitas vezes modifica tanto o arranjo original de suas músicas ao vivo que você só vai perceber que está ouvindo Blowin’ in the Wind depois do primeiro minuto. Macca faz parte do segundo tipo de chatos, aqueles ávidos por agradar, que querem ser bons anfitriões, dar um bom espetáculo. Foi ele quem pressionou os colegas dos Beatles a tocar incessantemente no começo da carreira, ele também foi o último a deixar a banda, provavelmente porque dificilmente existirá outro grupo de pessoas tão competente em agradar quanto aqueles quatro de Liverpool. Engraçado o primeiro disco deles ter sido batizado de Please Please Me, quando na verdade eram eles que estavam agradando a todos.

Quais as suas lembranças dos shows do Paul? Compartilhe o seu vídeo com o Estado e faça parte do clipe especial com registros dos fãs.