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A despedida da terceira geração de New Jersey

Gaslight Anthem anuncia separação, pelo menos por hora

Alexandre Ferraz Bazzan

24 Agosto 2015 | 16h09

Ele observa São Paulo de cima tentando entender por que resolveu morar nesta cidade. Fecha o livro de Mario Benedetti depois que o piloto anuncia a autorização de pouso. Melhor guardar as últimas páginas para o fim do dia. Mas e se o avião despencar, pegar fogo ou tiver problema no reverso? Ele jamais saberá se Ramón matou ou não o velho. Decide reabrir e ler até o fim.

Enquanto o avião vai baixando, a imensidão de bloquinhos de madeira que ele costumava brincar quando criança começa a tomar forma. Forma de concreto e não é nada bonita. Ele lembra do sonho de deixar a cidade pequena para trás. Um tipo de sonho que ninguém desenvolveu tão bem quanto Bruce Springsteen. A sensação de ter de se desprender de algo, de ter algum tipo de redenção que nem sempre acontece ou se estende por muito tempo, como narrado na música Glory Days.

Springsteen conseguiu, e ainda consegue, personificar o que John Lennon chamou de Working Class Hero ou o “herói da classe trabalhadora”. As histórias de superação reverberam constantemente com o que os americanos chamam de “blue collar” que são os trabalhadores braçais, com menos oportunidade.

Um outro rapaz seguiu essa tradição de contar histórias, mas com mais otimismo e confiança e, consequentemente, com menos realismo. Bon Jovi fala de pessoas passando por dificuldades em Livin’ on a Prayer, mas existe uma esperança, uma indicação de que tudo vai dar certo. Em outro hit ele fala do fato de se sentir como uma segunda-feira, mas a certeza de que um dia será sábado à noite.

Desde 2007, o Gaslight Anthem tinha recebido o bastão e em 2008, com o disco The 59 Sound, mostrou que mesmo com uma boa dose de punk rock no seu caldeirão, conseguia manter a tradição de New Jersey. Em 2009, Springsteen dividiu o palco com os conterrâneos no Hyde Park e no festival Glastonbury. Ele fez mais, chamou Brian Fallon, vocalista do Gaslight Anthem, para cantar No Surrender com a E Street Band. Uma honra para poucos (mesmo a banda sendo enorme). A benção estava dada.

A voz rouca, os temas inteligentes, mas não intelectuais(Springsteen fala disso em No Surrender, que aprendemos mais em um disco de 3 minutos do que na escola), a tradição ‘folk’ de levar mensagens por meio de histórias estava a salvo. Mais uma geração que poderia fazer isso com competência. Até pouco tempo atrás. No dia 29 de julho, a banda anunciou em sua página de Facebook que vai dar um tempo, seja lá o que isso signifique. O comunicado diz que os integrantes vão se manter ativos de uma forma ou de outra, mas que a atual turnê europeia é uma espécie de adeus do grupo.

Bruce chegou a fazer discos sem a E Street Band e Jon Bon Jovi teve seu momento de carreira solo. Que esse seja apenas um hiato e os caras de New Jersey sigam fazendo músicas que tiram o peso de um duro dia de trabalho.

Continua…