A camarotização do rock n’ roll
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A camarotização do rock n’ roll

Alexandre Ferraz Bazzan

24 Janeiro 2015 | 12h49

Há muito tempo, o AC/DC escreveu uma das músicas mais legais já feitas que dizia que é um caminho longo até o topo se você quiser fazer rock n’ roll. Essa máxima servia para a banda que batalhava para conseguir reconhecimento, mas também para os fãs que acampavam na porta de estádios, entravam em fã-clubes, estudavam cada momento de seus ídolos para poder ter esses momentos próximos quando eles visitam sua cidade.

Com o Foo Fighters não foi diferente. A galera chegou com vários dias de antecedência para dormir na porta do Morumbi. Acontece que quem não tinha 640 reais (esse valor sem as taxas de “conveniência”) para pagar a pista premium dava de frente com duas tendas enormes que impediam sequer a visão dos telões para quem “colava na grade”. Era preciso ir para as laterais do campo para ter uma visão minimamente decente do palco.

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Foto:Alexandre Bazzan/Estadão – Duas tendas obstruíam completamente a visão central do setor Pista.

Dave Grohl quebrou o galho do pessoal quando fez um pequeno set acústico próximo aos meros mortais. Foi o momento em que um rapaz pediu a mão de sua noiva em casamento e, enquanto alguns se emocionaram, outros torciam para que ela dissesse não. Depois do beijo do casal, Dave Grohl disse: “Pronto, agora deem o fora do meu palco”. Na sequência ele ainda brincou: “agora vocês já sabem, quando quiserem casar é só ir a um show do Foo Fighters.” Enquanto isso as pessoas tiravam suas selfies, filmavam músicas inteiras e levantavam suas namoradas nos ombros, tapando ainda mais a visão já limitada de quem estava no fundo. Eu me pergunto o que esse povo faz com tanta foto e filme depois. Garanta sua fotinha e guarde o celular, amigo, a transmissão o Multishow já vai fazer no Rio de Janeiro.

Os banheiros na pista eram insuficientes e formavam longas filas. Os homens improvisavam nas paredes e deixavam um cheiro forte de urina para quem estava sentado no setor Inferior das cadeiras.

Na saída do estádio, a pouca disponibilidade de portões abertos causou tumulto e fez com que muitas pessoas passassem mal por causa do aperto e calor. É lamentável que um evento desse porte ainda tenha um tratamento tão ruim para aqueles que não têm dinheiro, ou disposição, para pagar quase um salário mínimo no ingresso.

Sobre o Foo Fighters. Dave Grohl já tem seu lugar garantido no Olimpo do rock, não por causa de sua atual banda, mas é mais do que visível que ele não se escora em glórias passadas para fazer música. O Foo Fighters é dos poucos grupos com mais de 10 anos de carreira que continuam lançando discos relevantes. Serão estas gravações clássicos do rock? Provavelmente não, mas eles não deixam de ter músicas boas e despertar interesse, nem que seja para que meia dúzia de amargurados joguem suas pedras no antigo baterista do Nirvana.

No documentário Sonic Highways, Grohl faz referência e reverência ao saudoso amigo, porém, em seus shows, ele jamais se aproveita da memória de Kurt Cobain. Ele não toca músicas do Nirvana e, tirando a homenagem que faz aos seus antigos ídolos em covers de Black Sabbath ou Kiss, ele carrega três horas de espetáculo usando os 20 anos de catálogo do Foo Fighters. Ele criou uma persona de frontman diferente daquela que se escondia espancando a bateria ao fundo do palco. Sua presença de palco se aproxima muito mais dos líderes do metal e hard rock, do que dos contemporâneos do grunge. Em uma entrevista, Bruce Dickinson disse que, para tocar para milhares de pessoas, é preciso fazer movimentos amplos, correr pelo palco, nada de trejeitos indies, só assim até quem está na última fileira pode curtir o que está acontecendo. Isso e um som bem alto. É assim que Grohl se comporta, só que com composições mais suaves que as do Iron Maiden, claro.

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Foto:Alexandre Bazzan/Estadão

Não são poucas as canções do Foo Fighters que falam em recomeço: Times like these, Walk, e agora Subterranean. Seja por causa da ética de trabalho aprendida nas bandas punk de Washington (Mission Impossible e Scream) e no Nirvana, ou pelo trauma sofrido com a morte de Cobain, Dave Grohl está sempre disposto a começar de novo, como se não tivesse um grande alicerce que o sustentasse. Talvez, por esse motivo, ele consiga trazer cada vez que volta um show melhor.

 

 

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