80 anos de Leonard Cohen, 30 anos de ‘Hallelujah’
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80 anos de Leonard Cohen, 30 anos de ‘Hallelujah’

Cantor e canção envelheceram com graça única, conheça histórias sobre os dois

Alexandre Ferraz Bazzan

06 Março 2015 | 09h39

Judeu, Leonard Cohen teve como uma das primeiras inspirações para sua poesia os Salmos bíblicos. Referências cristãs estão por toda parte em seu trabalho, Hallelujah a mais óbvia delas. A Montreal na qual ele cresceu tinha essa dualidade judia e católica, mas foi somente após visitar uma terceira religião, o budismo, que ele conheceu qual era sua cura, sua redenção. A arte. A afirmação foi feita em uma entrevista para Mikal Gilmore pouco tempo depois de um retiro de 5 anos em um monastério, e 5 anos depois de ser ordenado monge budista.

Foto: Charles Sykes/Invision/AP

Foto: Charles Sykes/Invision/AP

Cohen já era reconhecido no mundo literário por suas poesias e seus dois romances, mas percebia nos anos 1960 que não seria possível viver de literatura. Como havia aprendido a tocar violão em um acampamento, decidiu transformar poesia em canções. Achou que estava criando algo novo, mas quando chegou a Nova York percebeu que Bob Dylan e outros já faziam o que ele queria. Entretanto, o bonde da história não tinha partido sem ele. Certa noite, no Max’s Kansas City, casa underground na “big apple”, um jovem Lou Reed diria: “Você não é o cara que escreveu Beautiful Losers? Sente aqui comigo.” Sem perceber, ele tinha sido influência para artistas que ele admirava bastante. Lou Reed, muitos anos depois, chamaria Cohen novamente, desta vez para entrar no Hall da Fama do Rock n’ Roll.

Ele recita Tower of Song do álbum I’m your man em agradecimento. Nada mais apropriado

O canadense parou de escrever livros, mas não parou de fazer literatura quando virou um cantor folk. Hallelujah teve 80 versões diferentes de letras antes daquela imortalizada no disco Various Positions, algo comum para grandes escritores. Hemingway mudou o final de Adeus às armas umas 40 vezes antes de publicar o clássico, e comparação não é nenhum exagero.

Hallelujah, que fez 30 anos recentemente, se tornaria sua canção mais conhecida, não por causa dele. Quando lançada em 1984 o hino foi completamente ignorado, mas o cover de John Cale de 1991 não só popularizou a canção, como serviu de base para a homenagem feita por Jeff Buckley, a mais marcante de todas. Bon Jovi certa vez teria ouvido Buckley executa-la e foi ao camarim parabeniza-lo: “essa sua música é linda.” e obteve uma resposta não muito simpática: “não é minha, é do Leonard Cohen, gênio.”

Ladies man. É quase uma contradição que uma alma tão elevada e espiritualizada esteja tão ligada a coisas mundanas. Quando Leonard Cohen fez 80 anos, ele decidiu que voltaria a fumar. No começo do século alguém alertou que sua voz estava ficando mais baixa e ele respondeu: “o que você espera depois de 50 mil cigarros e muitos litros de uísque?” Ele parou com o vício achando que o tabaco estivesse prejudicando suas qualidades vocálicas, mas era apenas o tempo.

Os impulsos sexuais de Cohen eram tão grandes como sua espiritualidade e necessidade de redenção. Chelsea Hotel N°2 seria um tipo de lembrança de seu breve envolvimento com Janis Joplin. Posteriormente ele pediria perdão ao fantasma da cantora em uma entrevista para a BBC por ter usado o nome dela. Seu quinto disco, Death of a ladies’ man, é outro indício da paixão pelo sexo oposto.

Ainda na entrevista para Mikal Gilmore, ele comenta o assunto contando a conversa que ele teve com um amigo com mais de 90 anos quando ele tinha apenas 57:

“Leonard, você tem percebido uma diminuição em seu apetite sexual?

Sim, agora que você falou, percebo que ele não é mais o mesmo. Quando você percebeu seu apetite sexual começou a diminuir?

Entre meus 17 e 18 anos.”

O mestre zen de Leonard Cohen, que morreu com 107 anos, costumava repetir a seguinte frase: “desculpe por não morrer.” Que o discípulo tenha a mesma longevidade.

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