15/3/2015
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15/3/2015

Uma homenagem ao movimento patriótico que tomou as ruas do país neste domingo.

Alexandre Ferraz Bazzan

16 Março 2015 | 01h06

Estou mais uma vez no avião voltando para São Paulo e ao meu lado uma senhora trajando uma bela camiseta com os dizeres: “Fora, Dilma”. Abro meu livro porque sei que vai ser uma viagem mais longa do que o normal. Ela olha para a capa e pergunta: “o senhor é psicólogo?”. Na capa está escrito Complexo de Portnoy*.

Mas eu queria falar sobre a dificuldade de ficar acampado em um grande festival.

Eu e um amigo decidimos participar do maior festival deste mundão. O Glastonbury. O trânsito nos fez gastar quase um dia todo para percorrer os cerca de 300 km de Londres à grande fazenda, mas, como havíamos comprado um negócio genial chamado 2 second tent (ou a tenda de 2 segundos), não demorou muito para nos instalarmos. Cadeado na barraquinha e lá fomos nós explorar as terras de Michael Eavis e sua filha Emily, organizadores do evento.

Depois de um grande hambúrguer e duas cervejas, o primeiro e principal problema aparece. É preciso evacuar e os banheiros são sofríveis e disputados. Para quem tem o intestino tímido é uma verdadeira batalha. Você pega uma grande fila, e sabe que muita gente espera que você saia o mais rápido possível depois que você se fecha na cabine. Para piorar, alguns dos sanitários são bem abertos e você olha para uma vala aberta de fezes enquanto faz suas necessidades. Algo como revezar entre o domingão do Faustão, o Gugu e a cobertura das manifestações.

Não demorou muito para que descobríssemos que os chuveiros ficavam localizados a uma caminhada de pelo menos 2 km. O festival, por sorte, distribui uma pequena revista com dicas sobre como proceder. Lenços umedecidos, essas maravilhas da natureza usadas para limpar bumbum de nenê foram a nossa salvação. Todos os dias acordávamos bem cedo, encontrávamos o banheiro mais vazio, fazíamos o que deveria ser feito. Voltávamos para nossa tenda e ali nos banhávamos como gatos siameses com a ajuda dos benditos lencinhos.

Um bravo cidadão inglês prova que é possível encarar o estrume de frente e planta uma bananeira em um dos banheiros mais no nojentos do mundo. Um herói

Um bravo cidadão inglês prova que é possível encarar o estrume de frente e planta uma bananeira em um dos banheiros mais no nojentos do mundo. Um herói

As hospedagens mais próximas custavam cerca de 2 mil libras, impraticável. Mas é possível sobreviver razoavelmente bem, você só não pode fazer três coisas: ir de chinelo havaianas, tomar as ciders (um tipo de cerveja horrível) e vacilar com pertences valiosos. O pessoal é demasiadamente civilizado, mas não vá deixar um relógio ou a carteira na barraca. No final das contas nossa maior dificuldade acabou sendo assistir a um show dos Rakes. Perto deles os banheiros até que eram legais.

*Eu de fato estava lendo o livro de Philip Roth e verdadeiramente existia uma senhora com uma camiseta anti-Dilma, mas ela não sentou do meu lado. Entretanto, vi bobagens maiores e menos engraçadas que essa durante o dia.

PS-O relato sobre os banheiros do Glastonbury é de uma viagem de 2009, e a única relação com o momento atual é o conteúdo das fossas do festival inglês

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