Um copo de mar entre náufragos

Estadão

20 de setembro de 2010 | 16h44

Metáfora de um mundo criado por vontade individual, o poema de Jorge de Lima adotado pela curadoria da mostra joga sobre o artista uma responsabilidade social que talvez não seja sua


Antonio Gonçalves Filho *

É revelador que o título da 29.ª Bienal Internacional de São Paulo seja um excerto do poema A Invenção de Orfeu, do poeta alagoano Jorge de Lima, Há sempre um copo de mar para um homem navegar.  Ou se afogar.  Lima, que também foi pintor, participou como artista na 1.ª Bienal de 1951, mas nunca será lembrado por suas pinturas.  Talvez seja demais exigir que o poeta fosse bom em tudo.  Lima era melhor quando se apropriava de textos alheios – ou, para usar o eufemismo da moda, quando praticava a “intertextualidade”.  Há passagens de Virgílio e Gerard Manley Hopkins, passando por Camões, em seu Orfeu.

Nesse aspecto, foi um pioneiro da colagem pós-moderna, que ressuscitou o conceito da Gesamtkunstwerk – “obra de arte total” – cunhado por Trahndorff e surrupiado por Wagner.  O copo de mar pode abrigar tanto ilhas intercomunicáveis de arte como um continente que submerge na transdisciplinaridade.  A Bienal lançou-se ao oceano como os navegadores do século 16.  Espera-se, agora, que a bússola funcione.

Os curadores da mostra, Agnaldo Farias e Moacir dos Anjos, usam o poema de Jorge de Lima como representação metafórica de um mundo em conflito, marcado pelo signo do desejo individual.  Nele, a arte ocupa um posto avançado na reinvenção da realidade.  Nesse utópico “copo de mar” caberiam ilhas não necessariamente isoladas, mas ligadas por um projeto “político” de desestabilização do olhar.  Ao visitante desse arquipélago caberia encontrar um idioma comum que possibilite o diálogo com o antípoda, o que justifica a cenografia insular assinada por Marta Bogéa, sugerindo que não há mais lugar para continentes.

Em outras palavras: parafraseando o artista inglês Tino Sehgal, na arte do século 21 não se admite mais manifestos – formas monstruosas de dominar o corpo social.  Conversar é sempre melhor.

No entanto, numa mostra espetacular de R$ 30 milhões, não cabem as “constructed situations” (situações construídas) de Sehgal, que rejeita catálogos ou qualquer material crítico quando vende sua obra – visual, nunca é demais lembrar.  Há, sim, um manifesto implícito no fragmento do poema de Lima e ele é usado para justificar a estreita relação entre arte e política vista pelos curadores da Bienal.

Pode ser que considerem um artista multimídia mais habilitado a realizar a Gesamtkunswerk, derrubando as fronteiras entre as mídias.  Por outro lado, pode-se argumentar que a interdisciplinaridade se equipara à falta de disciplina, como já disse a acadêmica americana Juliet Koss.

Os holandeses, ao criar um simulacro da “obra de arte total”, fizeram do termo similar, Gemeenschapskunst (arte do povo), um manifesto político que queria tornar a arte socialmente responsável.  Ele afundou miseravelmente no copo do mar batavo.  A arte não precisa ser responsável.  Ela precisa é de criadores.

A Bienal tem muitos deles, a começar por Nuno Ramos, que vai chocar os visitantes com uma gigantesca instalação no vão central do prédio, onde estão confinados três urubus vivos. É possível que o espectador menos familiarizado com a arte contemporânea, desestabilizado pela visão insólita de aves carniceiras numa gaiola, se obrigue a uma associação analógica com o atual panorama político pré-eleitoral, manipulado por uma força sinistra chamada sociedade do espetáculo.  Não é gratuita a ressurreição das ideias de Guy Debord no novo milênio, em que os artistas entram em laboratórios para criar coelhos transgênicos fosforescentes ou flertar com a ciência para expor carcaças.  Beckett fez melhor em Not I, seu monólogo sobre a tragédia do abandono humano.  Como se vê, um copo de mar pode provocar um naufrágio espetacular.


*Antonio Gonçalves Filho é repórter especial do Caderno 2 e autor do livro Primeira Individual, entre outros

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