Utopia e crítica se encontram

Estadão

20 de setembro de 2010 | 00h05

Os curadores Moacir dos Anjos e Agnaldo Farias tiveram pouco mais de um ano para dar forma à 29.ª Bienal de São Paulo. Desde o início, o projeto foi marcado pela necessidade de superação de uma das crises mais profundas vividas pela instituição e acabou tendo por eixo central a discussão em torno da relação entre arte e política.
Para conceber para mostra, eles contaram com a ajuda de curadores de diferentes nacionalidades: a espanhola Rina Carvajal, do Miami Art Museum, e o sul-africano Sarat Maharaj; como assistentes, o angolano Fernando Alvim, que dirige a Trienal de Arte de Luanda; a japonesa Yuko Hasegawa, do Museu de Arte Contemporânea de Tóquio; e a espanhola Chus Martinez, curadora-chefe do Museu de Arte Contemporânea de Barcelona. A seguir, Moacir e Agnaldo explicam os pontos principais desta edição do evento.

QUEM SÃO

Moacir dos Anjos nasceu no Recife, em 1963.  É pesquisador da Fundação Joaquim Nabuco desde 1990. Já foi curador do Museu de Arte Moderna Aloísio Magalhães do Recife e cocurador da Bienal do Mercosul de 2007.

Agnaldo Farias nasceu em Itajubá, em 1955. Crítico e curador, realiza projetos para o Instituto Tomie Ohtake. Foi curador-chefe do MAM do Rio (1998/2000). É professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP.

Vocês estão trabalhando há vários meses. Mudou alguma coisa em relação ao conceito em torno de arte e política? De que forma isso se traduz na mostra?

Moacir – Acho que na verdade essa relação é mais uma plataforma que nos permite pensar um sentido para a arte hoje em dia. O que pode a arte? Qual sua função no mundo? Na verdade, queremos resgatar a capacidade utópica da arte, sua capacidade de lançar situações que muitas vezes a gente não sabe nem nomear ao certo. A arte abre fendas nas convenções, nos consensos que organizam as formas de estar no mundo, com as vozes mais variadas, dos variados artistas.

Agnaldo – O que mudou de lá para cá foi o processo e a depuração das ideias, que levaram a um projeto expográfico original. É um espaço cheio de surpresas, truncado, que joga com isso. Tem vielas, becos, servidões, praças.

Tem algo de labiríntico?

Agnaldo – Tem um dado labiríntico que é um convite a uma certa deriva. Por outro lado, é só você caminhar em direção à luz, nas laterais, que você se resolve. É um estímulo ao visitante para que ele tenha de tomar decisões. E também para que tenha sempre a suspeita de que está perdendo alguma coisa, porque ao invés de tratar a inabarcabilidade de uma exposição tentando dar a ideia de que é possível ver tudo, o intuito é que justamente se tranquilize. É impossível ver tudo. O que está aqui é uma pequena mostra do que acontece no mundo, mesmo com esse viés tão amplo. Queremos que o visitante também descanse, daí a criação dos “terreiros”, que têm um dado arquitetônico e ao mesmo tempo artístico.

Vocês chegaram a 159 artistas e uma quantidade muito grande de vídeos. Como resolver essa angústia que acompanha sempre a Bienal em relação à impossibilidade de ver tudo?

Moacir – Com relação ao número de vídeos, esta Bienal coloca muito claramente certa contradição que existe hoje em dia nas grandes exposições. Ficou muito claro para nós que boa parte da melhor produção que é feita hoje em dia se vale dos filmes e vídeos. Não é à toa que todas as nossas vidas são mediadas por telas. Com os artistas acontece o mesmo. Eles mais e mais lançam mão desses meios para realizar seus trabalhos. Ficamos com a seguinte opção: ou desprezamos a maior parte dos melhores projetos, que demandam tempo para ser vistos, ou incorporamos esses trabalhos e assumimos a contradição de fazer uma exposição grande e com a duração maior ainda, colocando quase no limite essa contradição que não é só da Bienal de São Paulo. Como conciliar um modelo não é novo, vem de quase um século, com um tipo de arte que demanda mais e mais tempo para ser visto? Não sei, talvez seja necessário reinventar o modelo de bienais, superar o modelo da grande exposição. É uma questão em aberto.

O vídeo parece estar muito mais presente entre os artistas internacionais, enquanto que os brasileiros estão com obras mais ligadas ao espaço…

Agnaldo – Não tínhamos nos dado conta disso. Mas acho que há um contexto, uma tradição, uma herança. Cabe à Bienal inclusive criar outros paradigmas. Esse tipo de contato é muito fértil para os artistas. No caso dos brasileiros, a fotografia aparece de forma mais forte. Há que se levar em conta também que vários dos artistas foram indicados pelos outros cinco curadores convidados.

Nesta edição, a Bienal comissionou uma série de trabalhos, não?

Agnaldo – Pode-se fazer uma Bienal com trabalhos já realizados, mas é melhor você se envolver com o artista e não apenas estimulá-lo pelo convite, propiciar que ele produza algo que estava apenas em processo embrionário. Isso é o melhor que podemos aspirar e a mim não importa a qualidade do resultado. Esse risco é bom.

É possível quantificar a importância desses trabalhos?

Moacir – Fazendo um cálculo a grosso modo, dos 159 artistas, pelo menos 70 estão com trabalhos inéditos. Do restante, pelo menos uns 30 são trabalhos quase inéditos, muitas vezes foram mostrados uma única vez, em galeria.

Temos um núcleo histórico importante também.

Moacir – Não é exatamente um núcleo histórico, é um entrelaçamento com obras históricas.

Agnaldo – Logo na entrada da Bienal você encontra o Luiz Zerbini, a Lygia Pape e a Anna Maria Maiolino – a ideia foi acabar logo de cara com essa visão evolucionista, mostrar que o presente tem essa experimentação por causa desses outros que chegaram antes e cujas obras são muito potentes.

Moacir – Mostrar que a ideia de contemporâneo não é o que é atual.

Apesar de vocês falarem em caráter utópico, a exposição parece ter um ar mais sóbrio, uma tônica mais rebaixada.

Agnaldo – Acho que não. Só o fato de abrir tanto espaço para happenings, performances, encontros, cria uma ideia de celebração. As pessoas colocarão cores no espaço. Há uma alegria, mas é uma alegria crítica. O Brasil está vivendo uma histeria de alegria. Não há de fato essa harmonia. Não vamos disfarçar isso a partir do silêncio ou de um riso sem nenhuma razão de ser.

Como vocês veem o futuro das Bienais e como se colocam em relação às anteriores?

Agnaldo – O que estamos querendo fazer é honrar essa maravilhosa história que esta instituição tem, longeva para os padrões brasileiros. O fato dela entrar em crise é normal e a reação positiva das pessoas tentando reerguê-la demonstrou como ela é querida, como é importante. Só queremos apenas, sem pretensão, expandir aquilo que ela já fazia: a questão do educativo, a presença de outras instituições… Quer dizer, pegar os ensinamentos, as soluções dos outros e tentar aperfeiçoá-las.

Moacir – É um trabalho de envergadura gigante, exaustivo. Tirando essa parte pessoal, é um privilégio primeiro estar trabalhando neste momento de reafirmação da importância da instituição para o País, que em algum momento foi questionada sua sobrevivência. Acho que a Bienal tem que se mostrar necessária para o País e acho que é isso que esta gestão tem feito. A Bienal deve ter uma participação mais ativa na cena artística brasileira e não apenas a cada dois anos com a exposição, atuando seja por meio de um projeto educativo continuado, seja por meio de um projeto editorial ativo, seja por meio da participação no Projeto Brasil Arte Contemporânea, realizado em parceria com o Ministério da Cultura. A Bienal de São Paulo tem essa responsabilidade, esse papel maior de articulação entre as diversas instituições.

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