Soma de linguagens

Estadão

20 de setembro de 2010 | 00h07

Luiz Carlos Merten

Em edições anteriores, a Bienal de São Paulo já prestigiou a obra de artistas multimídias, mas nunca como neste ano teve tantos cineastas ilustres, reconhecidos entre os maiores autores do mundo, propondo instalações que somam e até confrontam linguagens.

Pela proximidade do prêmio, o mais falado talvez seja o tailandês Apichatpong Weerasethakul, que em maio ganhou a Palma de Ouro no Festival de Cannes com seu Uncle Bonmee Who Can Recall His Past Lives. O filme vencedor da Croisette, por sinal, baseia-se numa instalação que o próprio Apichatpong havia feito em Londres e Paris. Considerado hermético e até confuso, o poético filme baseia-se na suposição de que o Tio Bonmee possa se lembrar de suas reencarnações passadas. O protagonista diz que os fantasmas não costumam se prender a lugares e sim, a pessoas e animais. Mas no curta de 10 minutos que Apichatpong está trazendo para São Paulo – Fantasmas de Nabua -, o lugar é que está assombrado.

Fantasmas mostra arruaceiros que jogam futebol com uma bola de fogo nas ruas de Nabua, província que, nos anos 1960, sofreu violenta repressão do governo para eliminar comunistas e outros radicais. O tema político percorre a obra cifrada do diretor. Em Cannes, ao agradecer sua Palma de Ouro, ele disse esperar que o prêmio ajudasse a pacificar a Tailândia, dividida por conflitos políticos. O próprio tema da reencarnação, segundo o diretor, participa desse movimento em prol da vida.

A política também anima a obra dos outros cineastas presentes na 29.ª Bienal de São Paulo. Jean-Luc Godard, o grande revolucionário da linguagem nos anos 1960 – e desde então -, está trazendo Welcome Sarajevo, Ave Sarajevo, instalação em vídeo que parece sair de um de seus maiores filmes nos últimos tempos, Nossa Música. A belga Chantal Akerman, influenciada pelo cinema experimental de Jonas Mekas e Michael Snow, radicaliza em From the East, com sua viagem pelo antigo Leste Europeu. A época escolhida – o fim do verão e o início do inverno, atravessando o outono – revela muito sobre o que ela quer dizer sobre as condições de vida nestes países.

O inglês Steve McQueen, homônimo do astro de Hollywood, poderia estar trazendo sua série de selos Queen and Country – dedicada aos soldados ingleses que morreram no Iraque -, mas preferiu outra provocação. A videoinstalação Static propõe uma intervenção na Estátua da Liberdade – e em sua famosa tocha que representa o tema – justamente para que o engajado McQueen possa criticar as instituições – e o papel do Estado e da política – no mundo contemporâneo.

Talvez conectado com a proposta de McQueen, o alemão Harun Farocki usa videogame do Exército para treinar soldados como motivação para Jogos Sérios. Em seus trabalhos, o artista tem proposto uma espécie de memória da guerra para discutir a violência do mundo contemporâneo e a indiferença de quem não está sofrendo pela dor do outro. Essa memória se torna completamente virtual em Jogos Sérios, o que, de certa forma, libera o observador para encará-la como simples diversão. E há o português Pedro Costa, conhecido como cineasta dos pobres em seu país e cuja instalação usa o digital para refletir sobre a marginalização social, na Europa e no mundo.

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