Obra com urubus não incomoda público

Estadão

27 de setembro de 2010 | 18h16

Ligia Tuon e  Tiago Dantas

O protesto de ativistas contra a exposição de três urubus na Bienal de São Paulo, no último dia 25, parece não ter sensibilizado os visitantes da mostra.  Muitos deles afirmam não ver problema no confinamento dos animais.  “Achei o manifesto exagerado.  Os animais estão em um espaço aberto.  Parecem saudáveis e estão até voando.  Não vejo problema”, afirma a publicitária Samia Dias, de 33 anos.

A opinião da publicitária não é partilhada por entidades de defesa animal, que pretendem pedir a retirada do trio de urubus de cabeça amarela da obra Bandeira Branca, do artista plástico Nuno Ramos.  Um pedido de ação civil pública será entregue hoje ao Ministério Público Federal em nome do Fórum Nacional de Proteção e Defesa Animal e a ONG Resgato, do Rio de Janeiro.

“Vou buscar apoio de outras entidades”, afirma o advogado Rogério Gonçalves, que representa as duas ONGs.  Ele argumenta que a licença ambiental, emitida pelo Ibama de Sergipe, permite apenas a criação dos bichos.  “Não fala nada sobre expor as aves”.  Ativistas reclamam que os urubus não recebem alimentação, água e claridade adequadas.

A Fundação Bienal informou domingo, 26, por nota, que a obra “atende a todos os requisitos legais no que se refere ao trato e ao manejo dos animais”.  O artista plástico Nuno Ramos não foi localizado ontem para comentar o assunto.  Na noite anterior, ao ser questionado por ativistas, respondeu que não daria explicações a eles porque estava cansado, segundo a professora Valéria Brigante, de 44 anos, da ONG Animais da Aldeia.

Ramos não apresentou queixa contra o pichador Djan Ivson, artista credenciado na mostra Pixação SP da Bienal que escreveu a frase “Libertem os urubu (sic)” em um muro abaixo de onde ficam as aves.  “Foi uma performance artística e um protesto”, defende o artista plástico e professor Charles Dragon, de 31 anos, que participa da mostra com Ivson.

O grupo estava descontente com críticas que Ramos teria feito aos pichadores, segundo Dragon.  Para ele, os seguranças exageraram ao agredir Ivson.  “Foi um desrespeito à liberdade de expressão”.  A Bienal disse que tem compromisso com a liberdade dos artistas, mas que “o debate deve se dar no campo as ideias”.

Até uma peça que o diretor do Teatro Oficina José Celso Martinez levou à Bienal entrou na polêmica.  Os atores gritavam “não libertem os urubus”.

Mesmo assim, alguns visitantes nem mesmo notaram a presença dos animais na instalação.  Houve quem parou para admirá-los voando.  “A presença dessas aves faz parte da obra.  Olha só como voam!”, comenta o analista de suporte Rafael Klem, de 27 anos.  A professora de artes Amanda Miolim, de 26 anos, discorda. “É uma crueldade sem muita expressão artística.”

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