O americano que provoca na Bienal

Estadão

19 de outubro de 2010 | 15h42

Antonio Gonçalves Filho

O artista norte-americano Jimmie Durham é um cidadão do mundo, que tanto trabalha em Roma como em Berlim. Aos 70 anos, ele participa da 29.ª Bienal de São Paulo com uma instalação provocadora, Bureau for Research into Brazilian Normality, em que reúne fragmentos da cidade de São Paulo. Sua sala se assemelha a um museu etnográfico em que, irônico, ridiculariza a americanização do paulistano médio que consome café nas lojas da rede Starbucks. Nesse museu cabem anotações dessa sua pesquisa feita na maior metrópole brasileira. Nelas, sobram inclusive críticas aos nomes extravagantes dos condomínios residenciais de emergentes em busca da legitimação social. Sobre sua obra, Durham concedeu uma entrevista exclusiva ao Caderno 2.

Sua obra na Bienal é uma pesquisa antropológica sobre o modo de vida do brasileiro. Em sua opinião, qual é a característica mais forte do povo?

A passividade, a indiferença mais completa sobre o genocídio indígena. Os brasileiros, nesse ponto, não são muito diferentes dos canadenses, americanos, chilenos ou outros cidadãos das Américas. Ainda assim, é chocante. O Brasil é mais ou menos parecido com os EUA no que diz respeito à constante defesa do genocídio como uma condição para o desenvolvimento da nação.

Há alguns anos você enviou uma carta aberta à Bienal denunciando a situação das tribos indígenas. O que pensa sobre a ausência de artistas de tribos indígenas na mostra?

De fato, fui convidado há alguns anos pela Fundação Bienal para fazer uma palestra sobre o assunto e cheguei a escrever uma carta aberta. Há muito bons artistas de tribos indígenas, especialmente do Canadá e México. Do Canadá temos Edward Poitras, Rebecca Belmore, Fay Heavyshield, Kent Monkman. Do México, Minerva Cuevas, Daniel Guzman, Cisco Jimenez e Abraham Cruzvillegas. Não seria maravilhoso se a próxima bienal tivesse curadores e artistas indígenas? Seria uma bienal para acabar de uma vez com o velho mundo.

O tema desta Bienal é a relação entre arte e política. Quais obras lhe chamaram mais atenção na mostra?

Há muitos trabalhos de que gosto na Bienal, mas sou ruim para guardar nomes. Há um belo curta sobre racismo e opressão que, se não estou enganado, é de Artur Barrio e foi feito nos anos 1970. Lembro bem da música, sinistra e alegre ao mesmo tempo. O trabalho de Barrio vai além da confortável familiaridade que a arte oferece. É muito sincero. Adorei o trabalho de Maria Thereza Alves (somos parceiros há 32 anos). Também gostei de conhecer as obras de Nastio Mosquito e Kimathi Donkor. De modo geral, gosto mais da arte dos velhos artistas: Gustav Metzger, Anna Maria Maiolino e Jacobo Borges. Infelizmente, não vi o trabalho de Cildo Meireles acabado, mas admiro sua obra.

São Paulo é uma cidade muito americanizada e você colocou em sua instatação elementos que comprovam essa forte influência dos Estados Unidos. Quais são suas impressões sobre o diálogo entre a cultura brasileira e a americana em termos artísticos?

O mundo todo parece copiar os americanos, de uma maneira ou de outra, especialmente no campo artístico. Eu atribuo essa influência à falta de discurso intelectual e identifico sua marca no gesto rápido, geralmente denunciador da falta de conteúdo. O dinheiro fala e, ao que parece, é o interlocutor principal nesse diálogo.

Você diz que, para alguém ver Deus, é preciso olhar como Ele se mostra. No Brasil, você diz, de maneira irônica, que Ele talvez se mostre pela televisão. Qual é sua visão particular de Deus?

Qualquer conceito de deus ouvido ou lido por mim é um insulto à vida. Não sou religioso, mas muitas pessoas que me observam imaginam que sim, porque eu falo com pedras, animais, pedaços de pau e objetos que se tornaram pobres órfãos. Há um espírito e há espíritos. Não sei o que quero dizer com isso. Importa apenas que a cada instante há apenas um modo correto de agir.

A São Paulo Fashion Week, com seus desfiles também realizados no prédio da Fundação Bienal, recebeu comentários seus no catálogo da mostra. Há mesmo uma relação promíscua entre arte e moda neste século?

Quase ninguém mais se veste bem. Tenho um amigo índio de El Salvador que quer fundar um nightclub temático para homenagear os elegantes. Seus exemplos são Emiliano Zapata, Augusto Sandino e Lampião. Felizmente, ainda temos a boa e regeneradora arte. Ela apenas não é tão visível como as tolices que se fazem atualmente. O dinheiro corrompe tudo.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências: