Maureen Bisilliat: mil imagens do Brasil

Estadão

03 de outubro de 2010 | 20h42


Vera Fiori

A franja impertinente cai sobre os olhos cor de gato de Maureen Bisilliat, que, delicadamente, a afasta do rosto.  Aos 79 anos, cabelos brancos, cara lavada, saia longa e bolsa de couro atravessada na cintura, ela se destaca na multidão que passa pela Avenida Paulista com seu visual hippie.  Vai ver que foi por isso que o escritor Guimarães Rosa a apelidou de Irlandesa Cigana.  “Teria ele entrevisto alguma ancestralidade cigana nos meus cabelos longos, roupas amplas e sandálias no pé?  ”

Filha de um diplomata argentino e de uma pintora inglesa, a fotógrafa – nascida no condado de Surrey, Inglaterra – veio ao Brasil com seu primeiro marido e aqui ficou, a exemplo de tantos outros estrangeiros que se deixaram enfeitiçar pela cultura, pessoas e paisagens.  Criou raízes profissionais e familiares, tecendo uma rica trajetória, na qual o fotojornalismo dos tempos das revistas

Realidade e Quatro Rodas (editora Abril) e os ensaios musicados pela literatura de Guimarães Rosa, Jorge Amado, João Cabral de Melo Neto, Ariano Suassuna e Euclides da Cunha se entrelaçam. É também curadora do Pavilhão da Criatividade, no Memorial da América Latina, museu que ajudou a criar, com acervo de arte popular latino-americana.

Em 2003, o Instituto Moreira Salles (IMS) incorporou sua obra fotográfica completa, composta por cerca de 16 mil imagens, entre fotografias, negativos preto e branco e cromos coloridos.  A tecnologia atual possibilitou o restauro e o tratamento do acervo, que cobre os anos 60, 70 e 80.  Na época, ela saía em campo com uma câmera Asahi Pentax ou Leica, e voltava com rolos e rolos de filmes, substituídos pelos cartões das máquinas digitais.  Hoje prefere o vídeo como linguagem.

O livro Fotografias , editado pelo IMS, reúne uma retrospectiva do seu trabalho, assim como textos e críticas publicados nos principais veículos de mídia impressa e a biografia da fotógrafa, escrita pela jornalista Marta Góes.  Para apaziguar a alma inquieta, Maureen se entrega ao trabalho, e já adianta os planos de fazer um documentário com Lúcio Kodato, companheiro de estrada.

Início. “Meu batismo de fogo no fotojornalismo foi um número especial sobre o Rio de Janeiro, para a revista Quatro Rodas “, diz ela.  O ensaio Mangueira, de 1969, traz flagrantes preciosos da velha guarda, como Cartola em sua casa, crianças de verde e rosa e também os músicos Pixinguinha, João da Baiana e Braguinha, fotografados no centro do Rio com ternos bem talhados.  “As fantasias naquela época eram feitas à mão, em tecidos nobres, seguindo rigorosamente as cores da escola. ”

Também dos seus tempos de fotorrepórter é a imagem de Joana D’Arca, uma mulher de Bom Jesus da Lapa e sua condição de miserabilidade.  “Aquilo não é uma foto, é um grito”, diz Maureen.  Já na série Caranguejeiras, que foi capa da revista
Realidade em 70, a oportunidade surgiu à sua frente como num passe de mágica.  “Estava com o jornalista Audálio Dantas em Livramento, às margens do rio Paraíba do Norte, quando me distanciei dele e de repente ouvi uns barulhos vindos do mangue, quando me deparei com mulheres de todas as idades, catando os peixes na lama, num dia qualquer. ”

Quando ganhou o livro Grande Sertão: Veredas, como uma bandeirante moderna, com a máquina em punho, percorreu os povoados distantes descritos por Guimarães Rosa.  Chama atenção para a foto de Manuel Nardi, o vaqueiro Manuelzão do povoado Andrequicé, Minas, que inspirou um dos personagens mais famosos do autor.  “O Manuelzão foi um dos meus primeiros registros quando cheguei à fazenda onde ele trabalhava, e considerei isso um presságio. ” Em sua viagem aos sertões, Maureen recebeu, do próprio Rosa, algumas instruções do roteiro da viagem.

Minas, Bahia, Xingu. Também de Serra das Araras, Minas, foi a foto de um casal de noivos, ambos muito sérios.  “A melhor explicação que ouvi para a sisudez foi a de um rapaz que visitou uma exposição minha.  Quando alguém indagou a razão de os noivos não sorrirem na foto, ele, que deve ser mineiro, disse que rir seria uma falta de educação.  Achei fantástico”, afirma.

A Bahia e sua sensualidade já inspiraram um livro, Bahia Amada Amado, dos anos 60.  As fotos com cenas de pesca no Porto da Barra e na praia de Armação, e dos moradores do Maciel, zona de prostituição, parecem falar a mesma língua de seus colegas estrangeiros, Pierre Verger e Gautherot, mas ela aponta as nuances de cada um.  “A ironia e o humor permeavam as fotos de Verger.  Depois, aquela ironia francesa foi ficando mais amável.  Nas fotos límpidas de Gautherot, sempre digo que a gente vê o vento nas velas dos saveiros, mas nas minhas eu não vejo o vento. ” Mas o que dizer da foto de Maureen, de um forno para queima de carvão, em Lassance, Minas, cuja silhueta contra o céu tem a forma de um seio?

Alguns registros lhe são caros, como a foto do menino-anjo, tirada em São José do Rio Pardo, interior de São Paulo.  “Ele hoje está com 51 anos, mora em São Paulo.  Já a modelo negra da série Pele Preta, de 1966, resgata a fase de quando eu pintava modelos vivos. ”

Encorajada pelo marido Jacques Bisilliat e pelos irmãos Villas Boas, viajou várias vezes para o Parque Indígena do Xingu.  Gosta do seco, do sertão, das montanhas.  Mas do mato…  “Não queria ir, porque não tinha intimidade com o mato. ” Foi e voltou muitas vezes, obtendo fotos marcantes.  Em 1975, foi convidada pela Bienal de São Paulo para montar uma sala sobre o modo de vida do indígena xinguano, com direito a uma instalação de Paulo Aritana, chefe dos Yawalapiti.  O jovem chefe ficou meses hospedado em sua casa, na rua Bela Cintra, ponto de encontro de amigos e de partida para novas incursões.

Nessas idas e vindas, a família de Maureen -“unida, mas fragmentada” – acabou ficando em segundo plano, e lhe ocorre a frase de Tolstói: “Todas as famílias felizes se parecem e cada família infeliz é infeliz à sua maneira.  Acho que, como mãe, deixei muito a desejar”, reflete, lembrando os tempos de vida cigana que levava com seus pais, sempre mudando de país e de escola.  “Sou melhor como avó.  Quando nos tornamos avôs, mais ou menos já atuamos na vida e estamos disponíveis. ”

Mãe de Kyra, fruto de seu casamento com seu primeiro marido, o argentino Jepton, e de Sophia, sua filha com Jacques Bisilliat, fica feliz com o caminho de cada uma delas.  Kyra é produtora musical de bandas como a Buena Vista Social Club, e Sophia documenta a área social, como o trabalho cultural que desenvolveu com os presos do Carandiru .

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